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Central de Chernobyl foi blindada contra novos desastres menos para a guerra

Foto Shutterstock
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Quarenta anos após o maior acidente nuclear da história, a guerra na Ucrânia tornou-se na maior ameaça à central de Chernobyl, onde um único ataque com um drone colocou em causa décadas de esforços de proteção.

A catástrofe, ocorrida em 26 de abril de 1986 durante um teste de rotina a baixa potência no reator 4 da central soviética a 120 quilómetros a norte de Kiev, libertou a maior quantidade de radiação de sempre num evento não militar, inicialmente encoberta pelo Kremlin.

O incêndio resultante da explosão do reator demorou meses a controlar. Pelo menos dois funcionários da unidade morreram no dia do desastre e 28 bombeiros e elementos das equipas de emergência perderam a vida nos quatro meses seguintes, a que se somou um número indeterminado de casos de cancro associados à exposição a cerca de 100 elementos radioativos.

Seiscentas mil pessoas receberam o estatuto de 'likvidator', segundo dados russos partilhados pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), recrutados entre empregados da central, bombeiros, bem como soldados e mineiros da Rússia, da Bielorrússia e da Ucrânia, para os trabalhos de descontaminação e de contenção do material radioativo e prevenir que voltasse a ameaçar a região e todo o continente europeu.

A guerra colocou-se porém no caminho de Chernobyl quatro décadas depois, quando os militares russos usaram a vizinha Bielorrússia para lançar a invasão da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, e assumiram por breves semanas o controlo da central, antes de abandonarem as instalações, que entretanto pilharam e vandalizaram.

A ameaça deslocou-se para os céus, à medida que a Rússia executava bombardeamentos de saturação ao longo de mais de quatro anos de guerra, afetando também a antiga central, que, apesar de desativada, precisa ainda de alimentação permanente de eletricidade para os sistemas de segurança.

Em janeiro passado, os ataques russos contra centrais energéticas da Ucrânia privaram grande parte do país de eletricidade e Chernobyl perdeu temporariamente o abastecimento, levando a AIEA a insistir nos alertas sobre o risco de catástrofe em resultado de operações militares junto de instalações nucleares, sempre negadas pelos dois países.

Entre os incidentes mais graves, destaca-se um ataque, em fevereiro de 2025, com um drone explosivo, que atingiu a estrutura de proteção, instalada em Chernobyl para confinar 200 toneladas de material altamente radioativo que se estima que permaneça nos escombros do reator 4.

Uma primeira estrutura interna em betão armado, conhecida como "sarcófago", foi construída pelos 'likvidator' nas operações de emergência logo após o desastre de 1986, antes de se erguer uma outra, em 2019, chamada "novo confinamento seguro" (NSC, na sigla em inglês), com um custo avaliado em 1,5 mil milhões de euros e destinada a resistir um século.

Como causa do ataque aéreo que Kiev atribuiu à Rússia, a membrana interna desta cúpula ardeu lentamente até o fogo ser extinto no mês seguinte, com o recurso a mais de 300 pequenos buracos no NSC, sem registo de aumento dos níveis de radiação, embora os danos tenham sido significativos.

"O único país do mundo que ataca essas infraestruturas, ocupa unidades nucleares e faz guerra sem levar em conta as consequências é a Rússia", acusou na altura o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, enquanto Moscovo negava qualquer responsabilidade.

No final do ano passado, a AIEA confirmou que a selagem no reator 4 "perdeu as principais funções de segurança", ainda que os danos não fossem considerados permanentes.

Depois disso, "foram realizadas reparações temporárias limitadas", mas "o restauro completo e atempado continua a ser essencial para evitar danos maiores e garantir a segurança nuclear a longo prazo", indicou o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi.

Em vésperas do 40.º aniversário do desastre, a Greenpeace reforçou as inquietações da agência da ONU e alertou que um colapso descontrolado da estrutura de contenção pode aumentar o risco de fugas radioativas e levar a um retrocesso das medidas de defesa nas últimas décadas.

A organização ambientalista relatou, num relatório divulgado em 14 de abril, que, apesar dos trabalhos de reparação já realizados, a função de contenção da proteção não foi "totalmente restaurada", num trabalho dificultado pela persistência do risco de ataques russos.

"Se um projétil cair não só dentro da estrutura de contenção, mas a apenas 200 metros de distância, criará um impacto externo semelhante a um sismo", assinalou à agência de notícias France-Presse (AFP) Shaun Burnie, especialista em energia nuclear da Greenpeace, ao salientar que a tragédia de 1986 demonstrou que "as partículas radioativas não conhecem fronteiras".

Segundo uma estimativa apresentada pela presidência francesa do G7, numa reunião há um mês em Paris, o custo da reparação ascende a 500 milhões de euros.

"O G7 deverá desempenhar um papel catalisador na angariação de fundos, em estreita colaboração com o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento, afirmou então o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot.

A guerra na Ucrânia colocou também em foco a situação na central nuclear de Zaporijia, na cidade de Enerhodar, capturada pelos militares de Moscovo em 2022 e entregue à energética russa Rosatom, apesar de a produção ter sido entretanto interrompida.

A região de Zaporijia, no sudeste da Ucrânia, tem sido uma das frentes mais ativas de combate, que levou sucessivos apagões no fornecimento da eletricidade necessária para manter a maior central da Europa em segurança.

Além disso, a energética ucraniana Energoatom, que operava a unidade antes da guerra, tem repetido avisos sobre o nível da água de refrigeração desde a destruição em 2023 da barragem de Kakhovka, no mesmo rio Dniepre que passa em Enerhodar e abastecia a unidade.

O controlo da central é um dos principais temas que dividem Kiev e Moscovo, nas negociações de paz promovidas pelos Estados Unidos, e, embora o diálogo esteja praticamente paralisado, a Rosatom anunciou planos para reiniciar a atividade de pelo menos um dos seis reatores de Zaporijia.

A energética ucraniana advertiu ainda que o recomeço das operações em tempo de guerra significa brincar com o fogo, argumentando que a água disponível é insuficiente para reiniciar nem que seja apenas um reator e que os russos não possuem os projetos e licenças para gerir componentes específicos, como o combustível nuclear utilizado na unidade.

"Há uma grande probabilidade de ocorrerem erros no controlo do núcleo do reator, porque não conhecem o sistema e as especificidades do funcionamento", comentou o gestor da Energoatom, em janeiro ao jornal britânico The Times.

Segundo Pavlo Kovtoniuk, o risco de um "incidente nuclear muito perigoso" seria real naquele cenário e, tal como Chernobyil há 40 anos, deixaria a Europa inteira em sobressalto.