Madeira: de periferia a plataforma central do Atlântico
Durante demasiado tempo, a ultraperiferia foi vista como sinónimo de limitação. Distância, escala reduzida, fragmentação territorial — argumentos repetidos até à exaustão para justificar uma posição periférica no desenvolvimento científico e tecnológico europeu. Mas essa narrativa está, finalmente, a mudar. E a Madeira está no centro dessa mudança.
Os recentes protocolos que a ARDITI se prepara para celebrar com instituições de referência internacional, como o “National Oceanography Centre” do Reino Unido e a “Fundação Oceano Azul”, são um sinal claro: a Região já não é apenas um território remoto no mapa europeu — é um parceiro relevante, com ativos únicos e uma proposta de valor concreta no domínio das ciências e tecnologias do mar.
Não se trata de um acaso. A Madeira reúne condições singulares no contexto atlântico: uma localização estratégica no cruzamento de massas de água, proximidade a grandes profundidades oceânicas, influência climática e uma infraestrutura científica em crescimento, com destaque para o Observatório Oceânico da Madeira. Este conjunto de fatores transforma a Região num laboratório natural de excelência para a observação oceânica, o estudo das alterações climáticas, da biodiversidade marinha e do desenvolvimento de tecnologias emergentes.
Mas mais importante do que os ativos físicos é a mudança de posicionamento. Estes protocolos não são acordos de dependência; são parcerias entre iguais. Estruturam-se em torno da partilha de conhecimento, da co-criação de projetos, do desenvolvimento conjunto de tecnologia e da capacitação de recursos humanos. Não implicam subordinação financeira ou institucional — cada parte contribui com os seus recursos e beneficia de forma equilibrada. Isto é o oposto de uma lógica de subserviência.
É precisamente aqui que reside um ponto crítico para o futuro da Região. A Madeira deve ser exigente na forma como se posiciona internacionalmente. Nem todas as parcerias acrescentam valor. Há colaborações que reproduzem relações assimétricas, onde o território serve apenas como campo de testes ou extensão operacional de centros de decisão externos. Esse não pode ser o caminho.
A estratégia deve ser clara: privilegiar parcerias que tragam conhecimento, tecnologia, capacidade instalada e acesso a redes internacionais — e, simultaneamente, projetar o que a Madeira tem para oferecer. Porque tem muito. Tem território, tem contexto oceânico único, tem massa crítica crescente e tem ambição.
Valorizar a ultraperiferia não é um exercício retórico — é uma escolha estratégica. No domínio do oceano, a distância ao continente europeu é, na verdade, proximidade ao Atlântico profundo. Aquilo que durante décadas foi visto como desvantagem é hoje uma vantagem competitiva num mundo que procura compreender melhor os oceanos e responder a desafios globais como as alterações climáticas, a segurança marítima ou a economia azul sustentável.
Ser ilhéu, neste contexto, não é estar isolado. É estar ancorado num espaço de relevância global.
A Madeira tem hoje a oportunidade de afirmar um modelo de desenvolvimento assente no conhecimento, na tecnologia e na cooperação internacional qualificada. Mas isso exige visão e, sobretudo, confiança. Confiança para negociar de igual para igual. Confiança para dizer não a parcerias que não acrescentam. Confiança para investir de forma consistente nas suas capacidades endógenas.
O interesse crescente de instituições internacionais pela Região não deve ser motivo de deslumbramento, mas sim de responsabilidade. Cabe-nos transformar esse interesse em valor duradouro — científico, económico e social.
A Madeira não é periferia. É plataforma. E no centro do Atlântico, isso faz toda a diferença.