Mobilidade na Madeira: muito aeroporto, poucas estradas e filas intermináveis

Há quem ainda se lembre de quando atravessar a ilha da Madeira começava a deixar de ser um exercício de paciência. Houve um tempo em que novas estradas, túneis e vias rápidas iam surgindo um pouco por todo o território, encurtando distâncias, aproximando pessoas, criando oportunidades onde antes havia isolamento. Não era apenas betão: era uma ideia de futuro, uma visão de desenvolvimento pensada para quem cá vive. Essa visão mudou. E hoje sente-se todos os dias… ao volante.

Estradas que ficaram no passado

Quando se fala em “grandes obras viárias” concluídas na última década, convém dizer a verdade até ao fim: essas obras não nasceram agora. Muitas foram pensadas, projetadas e iniciadas muito antes da crise financeira, ficaram paradas durante anos difíceis e só mais tarde foram retomadas e concluídas. O mérito de as acabar é inegável, mas isso não significa que tenha havido uma verdadeira política nova para a mobilidade.

Desde 2015, praticamente não se lançaram novas grandes vias de raiz. Geriu se o que existia. Remendou se. Ajustou-se. Concluiu se o que vinha de trás. Mas pensar a rede viária como um todo, com horizonte de 20 ou 30 anos, isso deixou de estar no centro das decisões.

O Funchal engarrafado

E é no Funchal que esta falta de estratégia se torna mais evidente — e mais dolorosa.

O concelho onde se concentram empregos, escolas, hospitais, serviços públicos e comércio continua praticamente com a mesma estrutura viária de há anos, apesar de hoje circular muito mais gente e muito mais carros. Tirando a ligação do Amparo, que ajuda localmente mas não resolve o problema de fundo, não houve nenhuma grande obra nova. O resultado está à vista e não precisa de relatórios para ser explicado:

• filas intermináveis logo pela manhã, engarrafamentos ao final da tarde, acidentes ou pequenas avarias que bloqueiam metade da cidade, pessoas que perdem horas do seu dia em deslocações curtas.

Fazer vinte ou trinta quilómetros na Madeira pode hoje demorar mais do que atravessar uma cidade continental em dia complicado. E isto não é normal, nem deve ser aceite como inevitável.

Muito discurso, pouca estrada

Curiosamente, fala se muito de mobilidade. Mas quase sempre da mobilidade para fora: mais voos, mais rotas, aeroportos, portos, números recorde de passageiros. Tudo isso é importante, claro. O turismo é uma fonte essencial de riqueza.

O problema é o desequilíbrio. Enquanto se investe para receber cada vez mais visitantes, quem cá vive continua preso no trânsito, dia após dia. A mobilidade interna — aquela que leva uma pessoa de casa para o trabalho, da escola para casa, do centro de saúde para o lar — ficou em segundo plano.

Criou se um paradoxo difícil de explicar: uma região cada vez mais ligada ao mundo, mas cada vez mais bloqueada por dentro.

Planeamento faz diferença

Houve tempos em que os serviços técnicos ligados às infraestruturas tinham peso, autonomia e capacidade de pensar soluções estruturais. Não era tudo perfeito, mas havia estratégia, havia continuidade, havia engenheiros e planeadores a pensar o território para além do mandato seguinte.

Hoje, a sensação é diferente: muitas pequenas intervenções, muitas correções pontuais, mas nenhuma resposta de fundo para um problema que é estrutural. E quando o tráfego cresce todos os anos, pequenas melhorias são rapidamente engolidas pela realidade.

O que está em causa

No meio de tudo isto, o que mais preocupa não é apenas o incómodo do trânsito. É o impacto na vida das pessoas:

• menos tempo com a família, mais stress, mais custos escondidos, menor qualidade de vida, maior desigualdade para quem não pode escolher horários ou alternativas.

Mobilidade não é luxo. É um direito básico numa região desenvolvida.

Conclusão

A Madeira precisa de voltar a pensar a sua rede viária com ambição e coragem. Não para fazer obras por fazer, mas para garantir que quem cá vive não passa uma parte significativa da sua vida parado numa fila de trânsito.

Enquanto continuarmos a olhar mais para o embarque do que para o percurso diário de quem trabalha, estuda e cuida, o problema só vai piorar. E nenhuma campanha turística consegue disfarçar a frustração de quem, todos os dias, sente que a ilha avançou muito… menos no caminho até casa.

J.R.