Sozinhos, pouco podemos fazer. Juntos, podemos fazer muito
Não trago certezas absolutas, mas trago de sede de verdade. Tudo o que escrevo nasce apenas do que vejo, ouço ou vivo. É fácil chegar ao Outono/Inverno da vida e olhar para trás. Se o fizermos com honestidade, reconheceremos sem dificuldade os nossos erros, insuficiências e limites. A única influência que conheço naquilo que escrevo/digo é a da minha própria consciência, um recurso tão fora de moda nos dias que correm. A minha única pretensão é, enquanto cidadã, pensar, dizer o que penso e não pedir licença para isso.
À nossa volta há traços de Judas Iscariotes que ainda observamos hoje: hipocrisia, ganância e traição. Estou farta e cansada de tanta euforia plástica, de tanta hipocrisia social. Estou farta de governantes sonsos e detesto desonestidade intelectual seja de quem for, muito mais dos que fazem do cinismo a sua forma de estar na política. A política deveria ser o mais nobre exercício de cidadania reservado aos homens bons, àqueles para quem o serviço público estivesse acima de qualquer interesse pessoal. Vivemos numa época em que a verdade é tratada como um ruído inconveniente. Porém, o silêncio não é a melhor opção pois é a mais perigosa arma de obediência. Há muita gente que morre mesmo permanecendo viva, pois faz da banalidade, futilidade e inutilidade a sua forma de vida. Há gente que se acha importante e famosa porque tem palco e plateia, mas não tem a menor importância quando e porque promove o “apartheid” de cores partidárias, assente em critérios subjectivos. O que “separa”, realmente, as pessoas é a discrição, a educação, a generosidade e a distinção. Separar pessoas pelo extracto social, cor partidária ou outro motivo qualquer é uma forma simplista, reprovável e, paradoxalmente, pobre, apanágio dos pobres de espírito. Este tipo de comportamento deveria ser alvo de um estudo profundo e sério, já que os estudos estão na ordem do dia. Relativamente ao Porto Santo, desde algum tempo a esta parte, têm sido apontados alguns tipos de estudo cujas conclusões ficam no segredo dos deuses ou são consideradas inconclusivas, visto que nunca mais se ouviu deles falar. A não ser que eu esteja mal informada. Foi-me dito, oficiosamente, por parte de alguém com responsabilidade governativa à época, que o projecto “Life Dunas” não passou de um embuste para calar as vozes que se levantaram em defesa da restauração do cordão lunar, parcialmente destruído pelo temporal que assolou a ilha em 2018. Acho que o referido projecto foi implementado em 2021, mas as dunas estão até hoje por recuperar.
Outro estudo teria de ser realizado para avaliar a viabilidade de reposição da areia. Conclusão? Zero. Ou estudo inacabado, talvez.
Fala-se nos últimos dias num outro estudo para avaliar as propriedades terapêuticas da areia da nossa praia para fins medicinais, algo que já é do conhecimento público, até além fronteiras, desde o princípio do séc. XX, pelo menos...
Na minha perplexidade e do alto de toda a minha ignorância, eu acho que há matéria digna de registo, alvo de um estudo sério e de alguma profundidade e que requer alguma prioridade.
Será pertinente pensar na hipótese de “estudar “o estado da Saúde a nível local, nos mais diversos aspectos.
É gritante a insuficiência de consultas da especialidade, facultadas pela USL, com a agravante de não existir aqui medicina privada, a que se possa recorrer.
Mas não é preciso nenhum estudo para perceber que, para um doente, criança ou adulto, com problemas graves de mobilidade usufruir de uma única sessão semanal de fisioterapia com a duração de meia hora é, manifestamente, insuficiente e até ridículo. A uma criança com graves limitações de locomoção, fala e outras deficiências foi atribuído um horário de apenas quinze minutos. Insustentável.
Há outros doentes com graves problemas de locomoção, consequência de AVC , a quem foi dada alta.
Não é preciso um estudo científico para perceber que “sem ovos não se fazem omeletes”. Sem recursos humanos e físicos não há consultas necessárias e imprescindíveis.
É primordial que se investigue, com seriedade, o que estará na génese da tão elevada incidência de vários tipos de cancro, na nossa população.
Quem tem responsabilidade política não pode responder com sorrisinhos. A responsabilidade política não pode ser apenas uma folha seca ao sabor do vento.
Quase ninguém fala, quase ninguém exige, quase ninguém quer se comprometer. Quando todos se calam o que cresce não é a estabilidade, mas o espaço para a instalação de alguns interesses.
As pessoas têm medo de falar livremente, com receio de retaliações, perseguição profissional e social.
É preciso encontrar a coragem escondida, porque só ela combate o verdadeiro medo. Compartilhando nossos medos nos tornamos mais valentes.
Sozinhos, pouco podemos fazer. Juntos, podemos fazer muito.
Madalena Castro