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Fact Check Madeira

A Madeira regista uma média de três ou quatro paragens cardiorrespiratórias por semana?

A EMIR e outros profissionais do socorro e emergência pré-hospitalar têm sido determinantes para reverter algumas das situações, em tempo útil. 
A EMIR e outros profissionais do socorro e emergência pré-hospitalar têm sido determinantes para reverter algumas das situações, em tempo útil. , Foto Arquivo

Com frequência, os órgãos de comunicação social regionais noticiam a ocorrência de paragens cardiorrespiratórias que obrigam à intervenção das equipas de socorro e que, em alguns casos, culminam na morte do cidadão acometido desse problema de saúde.

A visibilidade mediática deste tipo de ocorrências poderá condicionar a percepção que temos do problema e sobre a sua frequência real. Neste contexto, importa avaliar até que ponto é correcta a ideia de que ocorrem, em média, três ou quatro casos por semana na Região, como afirma o leitor José de Carvalho, evidenciando o número que considera elevado.

É essa apreciação que procuramos fazer neste espaço.

Todas as semanas o DIÁRIO, à semelhança de outros órgãos de comunicação social, dá conta da ocorrência de paragens cardiorrespiratórias em diferentes contextos, sobretudo quando tal acontece na via pública e motiva a intervenção das equipas de socorro e de emergência pré-hospitalar.

Nos anos da pandemia da covid-19 e nos tempos que se lhe seguiram, sempre que estes assuntos eram notícia, era comum surgirem comentários que associavam essa problemática a hipotéticos efeitos secundários ou, se preferirmos as palavras utilizadas por alguns leitores, ‘danos colaterais’ da vacinação contra o coronavírus.

Essa tem sido uma ligação que carece de evidência científica consistente, ainda que num contexto geral. E, até ao momento, os estudos realizados sobre tais vacinas não demonstram um aumento generalizado do risco de paragens cardiorrespiratórias na população.

Embora tenham sido identificados efeitos adversos raros, nomeadamente casos de miocardite associados a algumas vacinas, sobretudo em grupos específicos, as autoridades de saúde têm sublinhado que estes episódios são pouco frequentes e, na maioria das situações, de evolução clínica favorável.

Quanto às paragens cardiorrespiratórias, os especialistas sublinham que a sua ocorrência está maioritariamente ligada à pré-existência de doenças cardiovasculares, ao envelhecimento da população e a factores de risco como a hipertensão, a diabetes ou o sedentarismo/falta da prática de exercício físico. A idade e o histórico de saúde do doente também são determinantes.

Quanto aos números referentes à Madeira, de acordo com os números oficiais tornados públicos, registam-se, em média, por ano, cerca de 300 paragens cardiorrespiratórias. Feitas as contas, considerando que um ano tem 52 semanas, estamos a falar de uma média semanal de, praticamente, sete destas ocorrências.

O DIÁRIO tentou obter, durante o dia de hoje, junto do Serviço Regional de Protecção Civil, que tem sob a sua alçada o Serviço de Emergência Médica Regional – SEMER, organismo que operacionaliza as actividades de emergência médica na Região, nomeadamente a EMIR - Equipa Medicalizada de Intervenção Rápida, o número mais recente de paragens cardiorrespiratórias registadas na Madeira, mas tal não foi possível até ao momento. 

Ainda assim, olhando ao histórico, esta problemática tem registado um aumento, nos últimos anos.

Em 2023, por exemplo, o antigo secretário regional de Saúde e Protecção Civil apontava para uma média anual de 200 paragens cardiorrespiratórias na Madeira e no Porto Santo.

Pedro Ramos, no âmbito das comemorações do Dia Mundial do Coração, em Setembro, salientava que “desses 200 nem todos acabam por falecer", enquanto enfatizava a resposta disponibilizada pelos serviços de emergência pré-hospitalar e pelo próprio Serviço Regional de Saúde (SESARAM), numa “resposta articulada nas situações agudas, urgentes e emergentes”, contribuindo para a diminuição de suspeitas de AVC, sepsis e politraumas, frisava o governante.

Mais recentemente, no ano passado, Micaela Freitas, actual governante com a pasta da Saúde e da Protecção Civil no Executivo madeirense, falava em cerca de 300 paragens por ano, na Região. No mês de Maio, no decorrer do ‘Mês do Coração’, uma iniciativa do SESARAM, a secretária regional alertava para a mais-valia da prevenção das doenças cardiovasculares, nomeadamente com a adopção de estilos de vida saudáveis. 

Por outro lado, a prática clínica evidencia que as paragens cardiorrespiratórias afectam cada vez mais pessoas mais jovens. Em Setembro último, no âmbito de uma iniciativa integrada no Dia Mundial do Coração, o cardiologista Bruno Silva apontava que “ainda existe a ideia de que o enfarte é um problema dos idosos, mas não é assim. Temos casos de doentes em paragem cardiorrespiratória a partir dos 30 ou 40 anos. É uma realidade que temos de enfrentar”, sublinhava o médico do SESARAM que destacava a importância do tratamento rápido e da Via Verde Coronária.

Em campanhas de sensibilização realizadas recentemente, a o Serviço Regional de Protecção Civil notava que cada minuto que passa diminui em 10% a probabilidade de sobrevivência numa paragem cardiorrespiratória.

Quanto ao cerne da questão, os dados indicam que a Madeira regista, em média, cerca de sete paragens cardiorrespiratórias por semana, um valor superior às três ou quatro apontadas pelo leitor, ainda que enquadrável na expressão “ou mais”. Ainda assim, a percepção de frequência elevada tem correspondência com a realidade, embora subestime a dimensão do fenómeno.

Pelo exposto, avaliamos a afirmação do leitor como imprecisa.

Num comentário a uma notícia que dava conta de que um ‘homem morre após paragem cardiorrespiratória’, o leitor José Carvalho apontava que “toda a semana são 3/4 ou mais”.