Venezuelanos questionam onde está o dinheiro da venda do petróleo aos EUA
Cem dias após a captura de Nicolás Maduro, os venezuelanos continuam expectantes sobre o futuro, a queixar-se da lentidão da transição e a questionar onde está o dinheiro da venda de petróleo e ouro aos EUA.
"Já passaram cem dias. Não vemos melhoria na economia e a transição marcha lentamente. Desde então a Venezuela está a vender petróleo e ouro aos EUA, mas não sabemos onde vai parar esse dinheiro", explicou um venezuelano à Lusa.
Javier Cedeño, contabilista explicou que os venezuelanos esperavam que com uma maior entrada de recursos, fosse já notável uma melhoria nalguns serviços, entre eles no abastecimento de energia elétrica, de água, e na atenção em saúde.
"Acreditávamos que ao haver mais recursos, chegassem dólares ao mercado e os preços dos produtos baixassem, mas não vemos isso. Pelo contrário tudo sobe de preço diariamente, inclusive nos valores referenciais em dólares e o bolívar [a moeda venezuelana] continua a perder valor", explicou.
Por outro lado, a administradora de um condomínio Elizabeth Sánchez, explicou à Lusa que "não se percebem mudanças reais no país, quer políticas, quer económicas".
"Muitos venezuelanos estávamos esperançados em um câmbio que parece não estar a acontecer ou se dará muito lentamente. O custo de vida diário está inclusive mais alto que no ano passado. Falou-se de milhões de dólares em venda de petróleo aos EUA, mas não sabemos o que está a acontecer", disse.
Esta venezuelana queixou-se que os proprietários de alguns imóveis exigem pagamentos em dólares norte-americanos, em cash, sublinhando que é cada vez mais difícil conseguir comprar divisas no mercado local.
"Agora há inclusive alguns fornecedores que oferecem descontos para pagamentos em cash, em dólares, que quase ninguém pode aproveitar", frisou.
Já o comerciante Andrés Marcano duvida que os recursos provenientes da venda de petróleo e de ouro venham a ser utilizados na totalidade para tender as necessidades dos venezuelanos.
"Temos imensas reservas, somos um país rico, mas as pessoas continuam a ser pobres, a passar fome e a sofrer diariamente as consequências do deterioro dos serviços públicos. Um aumento da produção de petróleo deveria trazer consequências positivas, imediatas, para a economia. Enquanto isso continuar assim não podemos falar de uma mudança, uma transição no país, com ou sem tutelagem dos Estados Unidos", disse.
Em 07 de janeiro de 2026, quatro dias depois da captura de Nicolás Maduro, os Estados Unidos anunciaram que planeiam controlar indefinidamente a venda de petróleo venezuelano e depositar as receitas dessas transações em contas geridas por Washington.
"Vamos colocar no mercado o petróleo bruto que está a sair da Venezuela, primeiro este petróleo que está atualmente retido, e depois, indefinidamente, venderemos toda a produção venezuelana no mercado", disse o secretário da Energia norte-americano, Chris Wright, numa conferência de Energia da Goldman Sachs em Miami (sul).
A 06 de janeiro de 2026, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que Caracas ia entregar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos para venda no mercado.
Em 14 de janeiro a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, garantiu que as receitas do petróleo serão destinadas à recuperação e reestruturação do sistema de saúde, afetado por anos de crise no país.
Em 25 de março, o secretário norte-americano do Interior, Doug Burgum, afirmou ter levado da Venezuela para os EUA 100 milhões de dólares (85 milhões de euros), em ouro, para investimentos industriais.
Burgum, que visitou a Venezuela a 3 de março juntamente com executivos do setor petrolífero e mineiro que pretendem iniciar operações no país sul-americano.
Em janeiro, os Estados Unidos capturaram o ex-líder venezuelano Nicolás Maduro numa operação militar em Caracas, deixando o resto do regime praticamente intacto.
A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo bruto do mundo, representando 17% do total, mas em janeiro de 2026 contribuía apenas com 1% da produção global.