Papa contra quem promove a guerra em oração pela paz no Vaticano
O Papa Leão XIV denunciou hoje os belicistas e as "demonstrações de força" durante uma oração pela paz, no Vaticano, numa das suas críticas mais veementes até à data aos conflitos armados que assolam o mundo.
"Basta de idolatria do ego e do dinheiro! Basta das demonstrações de força! Basta de guerra! A verdadeira força manifesta-se em servir a vida", afirmou o Sumo Pontífice, num discurso proferido na Basílica de São Pedro, em Roma.
Leão XIV presidiu a uma oração vespertina na Basílica de São Pedro no mesmo dia em que os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão iniciaram negociações presenciais no Paquistão e enquanto se mantém um frágil cessar-fogo.
Proferidas em tom ponderado, as palavras do chefe da Igreja Católica, que conta com 1,4 mil milhões de fiéis em todo o mundo, constituíram, no entanto, algumas das suas críticas mais contundentes até ao momento à onda de conflitos que assola o planeta.
"Queridos irmãos e irmãs, há certamente responsabilidades imperativas que incumbem aos líderes das nações. A eles clamamos: 'Parem! É tempo de fazer a paz! Sentem-se à mesa do diálogo e da mediação, não à mesa onde se planeia o rearmamento e se decidem ações mortais!'", declarou.
Tal como já fez no passado, o primeiro Papa norte-americano não citou qualquer político, nem se referiu a um país específico, mas o tom e a mensagem pareceram dirigidos às autoridades norte-americanas, que se vangloriaram da superioridade militar dos EUA e justificaram a guerra contra o Irão em termos religiosos.
Nos bancos da basílica estava o arcebispo de Teerão, o cardeal belga Dominique Joseph Mathieu, e os norte-americanos estiveram representados em termos diplomáticos pela sua vice-chefe de missão, Laura Hochla, informou a Embaixada dos EUA.
Nas primeiras semanas da guerra, Robert Francis Prevost, que nasceu em Chicago, mostrou-se relutante em condenar publicamente a violência e limitou os comentários a apelos discretos à paz e ao diálogo.
Mas, a partir do Domingo de Ramos, Leão XIV, nome papal que adotou, intensificou as críticas e, esta semana, disse que a ameaça do Presidente norte-americano, Donald Trump, de aniquilar a civilização iraniana era "verdadeiramente inaceitável", pedindo que o diálogo prevalecesse.
O Papa pediu hoje a todas as pessoas de boa vontade que orassem pela paz e exigissem o fim da guerra aos seus líderes políticos.
A vigília noturna em Roma, que contou com leituras das Escrituras e recitação meditativa das orações do Rosário, decorreu em simultâneo com serviços de oração locais nos EUA e noutros países.
Rezar pela paz, disse o líder católico, é uma forma de "quebrar o ciclo demoníaco do mal" para construir, em vez disso, o Reino de Deus, onde não há espadas, 'drones' ou "lucro injusto".
"É aqui que encontramos um baluarte contra esta ilusão de omnipotência que nos rodeia e que se torna cada vez mais imprevisível e agressiva", afirmou, acrescentando que "até o santo nome de Deus, o Deus da vida, está a ser arrastado para discursos de morte".
As autoridades norte-americanas, e especialmente o Secretário da Defesa Pete Hegseth, invocaram a sua fé religiosa para apresentar os EUA como uma nação cristã que tenta vencer os seus inimigos.
Leão XIV salientou que Deus não abençoa nenhuma guerra, e certamente não aqueles que lançam bombas.
O Papa presidiu à cerimónia sentado junto ao altar num trono branco, vestindo a sua capa vermelha formal e estola litúrgica, rezando com um terço nas mãos, e muitos dos padres e freiras nos bancos manuseavam os terços enquanto se recitavam as orações "Pai Nosso" e "Ave Maria".
O Vaticano está particularmente preocupado com os efeitos colaterais da guerra de Israel contra o Hezbollah no Líbano, dada a difícil situação das comunidades cristãs no sul do país.