Influenciadores que lucram com a perda dos outros
A recente investigação publicada pelo Público trouxe para o centro do debate uma realidade inquietante: influenciadores digitais que lucram com as perdas de jogadores em casinos online ilegais. O tema pode parecer distante, mas não é; atravessa as nossas casas, alcança os nossos jovens e toca as nossas famílias.
Durante muito tempo, olhámos para a internet como um espaço de descoberta e criatividade. Um lugar onde partilhávamos blogues, fotografias, projetos e ideias com entusiasmo genuíno. Havia uma certa ingenuidade bonita na forma como habitávamos o digital. A promessa era a democratização da voz, da proximidade e da autenticidade.
Hoje, o cenário é mais complexo. Alguns criadores de conteúdos, com milhares ou milhões de seguidores, promovem plataformas de jogo ilegais e recebem comissões calculadas a partir das perdas dos utilizadores que encaminham. Ou seja, quanto mais alguém perde, mais o influenciador ganha. Uma segunda investigação acrescenta um dado preocupante: ferramentas de inteligência artificial, muitas vezes vistas como neutras ou meramente informativas, podem sugerir diretamente esses mesmos casinos, sem alertas claros sobre riscos ou enquadramento legal.
Estamos, portanto, perante um ecossistema em que influência humana e recomendação algorítmica se cruzam, ampliando o alcance de práticas que podem causar danos financeiros e emocionais. É impossível ignorar o impacto disto, sobretudo junto de públicos jovens. A estética da abundância, dos carros de luxo, das viagens e da vida “sem limites”, constrói a ilusão de que o sucesso é imediato e acessível. A promessa implícita é simples: arrisca, joga, acredita. Mas a matemática do jogo raramente joga a favor de quem aposta.
Enquanto professora e investigadora em media digitais, acompanho diariamente a forma como as narrativas online moldam expectativas e comportamentos. Sei que os influenciadores não são os únicos responsáveis. As plataformas, os modelos de monetização e as falhas de regulação também fazem parte da equação. Ainda assim, não podemos separar influência de responsabilidade.
Há aqui uma dimensão ética que não pode ser ignorada. Quando a audiência é construída com base na confiança e na identificação, essa relação não pode ser instrumentalizada à custa da vulnerabilidade alheia, sobretudo quando falamos de práticas ilegais ou de risco elevado.
Também precisamos de olhar para nós próprios enquanto sociedade. Que literacia digital estamos a promover? Estamos a ensinar os mais novos a distinguir publicidade de entretenimento? A questionar promessas fáceis? A compreender como funcionam os modelos de negócio e os algoritmos que moldam o conteúdo que consomem?
Não se trata de demonizar a internet nem de saudosismo tecnológico; trata-se de maturidade coletiva. O digital é hoje parte estrutural da nossa vida social e económica. Exige, por isso, um compromisso igualmente estrutural com a ética, a transparência e a proteção dos cidadãos.
É fundamental reforçar a fiscalização e clarificar responsabilidades. É urgente investir em literacia mediática nas escolas e nas comunidades. É necessário que os próprios criadores de conteúdo reflitam sobre o impacto real das suas escolhas.
A internet pode continuar a ser um espaço de criatividade, inovação e oportunidade. Mas só o será verdadeiramente se colocarmos o bem-estar das pessoas acima do lucro fácil. Este é um desafio que nos diz respeito a todos. Que tipo de cultura digital queremos construir? A resposta começa em cada um de nós.