Leão XIV rejeita alegações de que Deus justifica a guerra, na missa do Domingo de Ramos
O Papa Leão XIV rejeitou hoje na missa de Domingo de Ramos, perante dezenas de milhares de pessoas, na Praça de São Pedro, no Vaticano, em Roma, as alegações de que Deus justifica a guerra.
Com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão a entrar no seu segundo mês e a campanha russa em curso na Ucrânia, Leão XIV dedicou a sua homilia do Domingo de Ramos a insistir que Deus é o "rei da paz", que "rejeita a violência e conforta os oprimidos".
"Irmãos e irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da Paz, que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra (...) Ele não escuta as orações daqueles que travam a guerra, rejeita-as", disse o Papa, citado pela agência Associated Press (AP).
Os líderes de todos os lados da guerra contra o Irão têm usado a religião para justificar as suas ações. Autoridades norte-americanas, especialmente o secretário da Defesa Pete Hegseth, invocaram a sua fé cristã para apresentar a guerra como uma nação cristã a tentar derrotar os seus inimigos com poder militar.
A Igreja Ortodoxa Russa também justificou a invasão da Ucrânia pela Rússia como uma "guerra santa" contra um mundo ocidental que considera ter caído no mal.
O Domingo de Ramos assinala a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém no período que antecedeu a sua crucificação, que os cristãos comemoram na Sexta-Feira Santa, e a ressurreição no Domingo de Páscoa.
A celebração de hoje começou com uma procissão de cardeais, bispos, padres e leigos a entrar na praça carregando ramos de oliveira e folhas de palmeira, alguns intricadamente trançados. Pararam junto ao obelisco central, onde Leão XIV proferiu uma oração de abertura, e depois seguiram em procissão em direção ao altar para dar início à missa.
De acordo com a AP, no início desta Semana Santa relembra-se também o sofrimento do Papa Francisco.
Quando a Semana Santa teve início em 2025, o Papa Francisco ainda recuperava no Vaticano após uma internação hospitalar de cinco semanas devido a uma pneumonia dupla. Tinha delegado as celebrações litúrgicas, mas recuperou forças no Domingo de Páscoa para saudar os fiéis da janela da Praça de São Pedro. Fez então o que viria a ser a sua última volta de papamóvel pela praça.
Francisco faleceu na manhã seguinte, na segunda-feira de Páscoa, após sofrer um AVC. O seu enfermeiro, Massimiliano Strappetti, contou mais tarde à 'Vatican Media' que Francisco lhe tinha dito: "Obrigado por me trazer de volta à praça para a saudação final."
Leão deverá presidir aos compromissos litúrgicos desta semana recuperando a tradição da cerimónia do lava-pés da Quinta-feira Santa, que comemora a Última Ceia de Jesus com os seus discípulos.
Durante o seu pontificado de 12 anos, Francisco celebrou o ritual da Quinta-feira Santa, deslocando-se a prisões e centros de refugiados na área de Roma para lavar os pés das pessoas mais marginalizadas pela sociedade.
O seu objetivo era incutir a mensagem de serviço e humildade do ritual, e frequentemente refletia durante as suas homilias da Quinta-feira Santa: "Porquê eles e não eu?".
O gesto de Francisco foi elogiado como uma prova tangível da sua convicção de que a Igreja deve ir às periferias para encontrar aqueles que mais precisam do amor e da misericórdia de Deus, mas alguns críticos ficaram indignados com as visitas anuais, especialmente porque Francisco também lavava os pés de muçulmanos e de pessoas de outras religiões.
Leão XIV, o primeiro papa nascido nos Estados Unidos da história, está a restabelecer a tradição do lava-pés da Quinta-feira Santa na Basílica de São João de Latrão, onde os papas a realizaram durante décadas.
O Vaticano ainda não revelou quem irá participar, embora os papas Bento XVI e João Paulo II costumassem lavar os pés a 12 sacerdotes.
O Papa deverá presidir à procissão da Sexta-Feira Santa no Coliseu de Roma, em comemoração da Paixão e crucificação de Cristo.
O sábado traz a Vigília Pascal, que se realiza à noite, durante a qual Leão XIV batizará novos católicos, seguindo-se, algumas horas mais tarde, o Domingo de Páscoa, quando os cristãos comemoram a ressurreição de Jesus.
O Papa Leão celebrará a missa do Domingo de Páscoa na Praça de São Pedro e, em seguida, dará a sua bênção pascal a partir da loggia (janela) da basílica.