Um mês depois, conflito mostra imprevisibilidade e risco global crescente
Um mês depois do início do conflito militar no Golfo, a guerra permanece longe do rápido desfecho antecipado pelo Presidente norte-americano e ameaça a estabilidade regional e a economia global.
Fontes militares e analistas sublinharam que, apesar da "inegável superioridade operacional" das forças norte-americanas, Washington parece ter sido apanhado desprevenido pela resiliência iraniana, nomeadamente no uso de mísseis balísticos e redes regionais de influência.
A realidade no terreno na ofensiva de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, marcada por avanços táticos, recuos estratégicos e uma elevada imprevisibilidade, tem contrariado a previsão inicial de Donald Trump, expondo a complexidade de um conflito que rapidamente extravasou o quadro de uma operação militar limitada.
Logo nas primeiras horas da operação Fúria Épica, em 28 de fevereiro, forças norte-americanas e israelitas realizaram cerca de 900 ataques aéreos em 12 horas, atingindo sistemas de defesa, bases de mísseis e centros de comando em todo o Irão, numa ofensiva que incluiu bombardeiros estratégicos e cerca de 200 caças israelitas.
Entre os alvos esteve a liderança iraniana, com Washington e Telavive primeiro, e Teerão posteriormente, a confirmarem a morte do líder supremo Ali Khamenei, num ataque de "decapitação" que marcou o ponto de viragem inicial do conflito.
A resposta iraniana foi imediata e significativa: cerca de 170 mísseis balísticos foram lançados contra Israel e contra bases norte-americanas no Golfo, atingindo infraestruturas no Bahrein e áreas urbanas como Haifa e Telavive.
Nos dias seguintes, Teerão intensificou o uso combinado de mísseis e drones, numa estratégia de desgaste que visou não apenas alvos militares, mas também a disrupção logística e energética da região.
Rapidamente, o conflito assumiu contornos particularmente sensíveis com a extensão das operações iranianas a países vizinhos que acolhem bases ou interesses norte-americanos, alimentando receios de um alargamento do teatro de guerra.
Apesar de ataques pontuais contra alvos ligados aos Estados Unidos em territórios como Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, estes países têm mantido uma postura de contenção, evitando uma escalada direta que podia desencadear um conflito regional de maiores dimensões.
A partir da segunda semana, o conflito expandiu-se de forma mais visível ao Líbano, com o movimento xiita Hezbollah, apoiado por Teerão, a lançar foguetes e drones contra o norte de Israel e este a responder com bombardeamentos intensos e, posteriormente, com operações terrestres no sul libanês.
Trump tem criticado repetidamente os aliados, em particular os países-membros da NATO, por não contribuírem de forma mais ativa para garantir a segurança da navegação no estreito de Ormuz, alegando que a Europa precisa mais daquela passagem do que os EUA.
O bloqueio de Ormuz tem provocado perturbações significativas nos mercados energéticos globais, com reflexos diretos nos preços do petróleo e do gás, alimentando receios de uma nova crise energética com impacto na economia mundial.
No plano diplomático, a ONU tem reiterado apelos para um cessar-fogo imediato, enquanto líderes europeus e a NATO defendem uma solução negociada que evite uma escalada irreversível.
No que respeita ao balanço humano, as estimativas disponíveis --- com forte variação consoante as fontes --- apontam para vários milhares de mortes na região ao fim de um mês de combates.
No Líbano, o Ministério da Saúde do Líbano anunciou que os ataques israelitas fizeram 1.094 mortos desde o início da guerra, mais de 3.000 feridos e mais de um milhão de deslocados.
Do lado norte-americano, fontes militares apontam para pelo menos 13 militares mortos e cerca de 150 feridos; em Israel, as autoridades têm sido reservadas, mas admitem várias vítimas entre militares e civis, sobretudo na sequência de ataques com mísseis e drones iranianos e de confrontos diretos com o Hezbollah no norte do país.
Já no Irão, além das baixas militares - estimadas em mais de mil apenas na primeira semana - o número de civis mortos tem aumentado, particularmente em resultado de ataques a infraestruturas em zonas urbanas.
Nos últimos dias, Trump tem referido a existência de contactos diplomáticos com o Irão, afirmando que "as discussões continuam e são produtivas" e, embora estas declarações tenham sido negadas pelas autoridades iranianas.
Ainda na quinta-feira, o enviado norte-americano Steve Witkoff falava em "fortes indícios" da possibilidade de uma solução de paz a curto prazo, com a mediação das autoridades do Paquistão.
Nos últimos dias, Teerão admitiu trocas indiretas de mensagens, mas rejeitou um plano de paz de 15 pontos proposto pelos Estados Unidos, o que mantém o impasse, com novas ameaças de escalada de todas as partes.
A questão central permanece em aberto: como sair de uma guerra que, apesar de inicialmente concebida como rápida e cirúrgica, se transformou num teste prolongado à capacidade de gestão estratégica de Washington, Telavive e Teerão.