Encerramento da estrada Encumeada – Paul da Serra é coisa de anos?
O mau tempo, que a Madeira tem vivido nos últimos dias, voltou a impor o encerramento de um conjunto alargado de estradas, veredas e infra-estruturas, como portos e promenades marítimas, por questões de segurança. Num comentário a uma das muitas notícias sobre esses encerramentos, um leitor veio afirmar que a estrada da Encumeada está encerrada há anos e que o DIÁRIO não o noticia.
Ora, a parte de o DIÁRIO não noticia nem será objecto desta verificação de factos, por evidentemente falsa. Existem dezenas de notícias no DIÁRIO e nos demais órgãos de comunicação social da Madeira – JM, RTP-M e Funchal Notícias, sobre encerramentos da estrada entre a Encumeada e o Paul da Serra.
O que vamos verificar é se, de facto, existe, ao longo dos últimos anos, um período de fecho alargado da referida estrada, que possibilite que se afirme que está encerrada há anos.
A verificação será realizada com base em notícias publicadas nos referidos órgãos e, indirectamente, por comunicados da Protecção Civil Regional, através do eco que tiveram na comunicação social. O que interessa, neste caso, não é tanto apurar todos os condicionamentos temporários de poucas horas ou de um dia, mas perceber se a afirmação do leitor de que “a da Encumeada está encerrada há vários anos” encontra suporte suficiente nos factos conhecidos sobre a Estrada Regional 105, no troço entre a Boca da Encumeada e a Bica da Cana, no Paul da Serra.
A partir do levantamento efectuado, chegámos a uma resposta curta: Sim, encontra. E encontra por duas vias distintas. A primeira é a existência de um encerramento contínuo recente, suficientemente longo para, por si só, sustentar a ideia de que se trata de “coisa de anos”. A segunda é o histórico reiterado de fechos prolongados ao longo da última década, que mostra não estarmos perante um episódio excepcional, mas antes perante um problema recorrente daquela via de montanha.
O artigo publicado pelo DIÁRIO em Agosto de 2024 é particularmente claro a esse respeito. Nele é referido que a estrada estava encerrada desde 12 de Janeiro desse ano e assinalado que a reabertura não deveria acontecer tão cedo e recordava ainda que aquela não era “a primeira vez” que a via permanecia encerrada durante largos meses. Mais do que isso, o texto recuperava dois precedentes relevantes: uma derrocada em Outubro de 2013 que levou ao fecho da estrada durante quase dois anos e meio, até Fevereiro de 2016, e um novo encerramento, após o incêndio de Setembro de 2017, que se prolongou até Setembro de 2018.
Estes elementos são decisivos, porque permitem afastar logo duas leituras erradas. A primeira seria a de que a estrada se encontra fechada ininterruptamente “há vários anos” desde um passado remoto, como se nunca tivesse reaberto. Isso não é o que os dados permitem dizer. O próprio histórico publicado no DIÁRIO mostra que houve diferentes ciclos: um fecho prolongado entre 2013 e 2016; reabertura em 2016; novo encerramento entre 2017 e 2018; reabertura em 2018 e um novo ciclo de fecho iniciado em Janeiro de 2024.
A segunda leitura errada seria a de que estamos perante simples interrupções ocasionais, de um dia ou dois, próprias de qualquer estrada de montanha. Também isso não corresponde ao retrato factual. Como referimos no trabalho aludido, estamos perante um “cenário recorrente, ao longo dos anos”, e, já em 2016, noutro trabalho do DIÁRIO, dávamos conta da interdição “bastante frequente e por períodos bastante prolongados, pelo menos nos últimos (anteriores) 13 anos”.
É precisamente este segundo ponto que dá consistência à conclusão. Quando, no mês passado, Fevereiro de 2026, o DIÁRIO volta ao tema, já não se limita a notar que a estrada continua fechada. Como afirmámos, o troço da ER 105, entre a Boca da Encumeada e a Bica da Cana, está encerrado “há mais de dois anos” e sublinhámos que esse tipo de interdição tem sido frequente ao longo de pelo menos 13 anos. O mesmo texto recorda ainda que, depois do encerramento decretado em Janeiro de 2024, o grande incêndio de Agosto desse ano agravou a situação, dificultando ainda mais uma reabertura rápida. Esta referência permite fixar um dado objectivo: existe já um fecho contínuo superior a dois anos. Nesse sentido estrito, dizer que a estrada “está encerrada há anos” não é exagerado.
Há, porém, uma nuance metodológica que convém assinalar. A formulação do leitor é genérica. Não distingue se fala de encerramento contínuo ou de encerramentos repetidos. Ora, se tomarmos a frase à letra máxima, como se afirmasse um fecho ininterrupto de muitos anos seguidos, ela seria imprecisa. O que se pode comprovar é outra coisa: que a estrada acumulou vários períodos de fecho ao longo da última década e que, no ciclo actual, soma já mais de dois anos consecutivos de encerramento. A diferença não é despicienda. Ela é sustentável no sentido corrente e jornalístico da expressão, não num sentido cronológico absoluto de continuidade desde há muitos anos sem qualquer reabertura intermédia.
A própria descrição das causas reforça esta leitura. Em 2014, o DIÁRIO já relatava que a estrada regional 105, ligação entre a Encumeada e o Paul da Serra via Lombo do Mouro, estava encerrada ao trânsito desde o final do ano anterior devido a uma derrocada de grande extensão, com danos tão elevados que exigiam concurso público e obras de reconstrução, prevendo-se mais alguns meses de fecho. Não sendo este texto, por si só, suficiente para calcular todos os dias exactos de encerramento na década, ele encaixa no padrão mais vasto descrito nas notícias de 2024 e 2026: não estamos perante uma estrada que fecha apenas por episódios pontuais de limpeza ou por algumas horas em mau tempo extremo. Estamos perante uma via cujo histórico recente inclui derrocadas, incêndios, instabilidade de taludes e longos períodos de interdição.
Por isso, o ponto central da verificação não está em saber se existiram notícias sobre o assunto — existiram, e muitas — nem em discutir se a estrada esteve fechada todos os dias de todos os últimos anos. O ponto está em saber se há base factual bastante para a afirmação de que o encerramento da ligação Encumeada–Paul da Serra é “coisa de anos”. E há. Há porque a documentação disponível mostra sucessivos encerramentos prolongados desde pelo menos 2013. O próprio DIÁRIO, já neste ano de 2026, resume esse historial falando em interdições frequentes e prolongadas ao longo de 13 anos. Além disso, o encerramento iniciado em Janeiro de 2024 já ultrapassava os dois anos sem reabertura e assim promete continuar.
Assim, avaliamos como verdadeira a afirmação do leitor. Não porque a estrada esteja fechada de forma permanente e sem interrupção há uma década, o que seria uma formulação excessiva, mas porque os factos conhecidos permitem afirmar que, ao longo de mais de uma década, aquela estrada tem registado encerramentos frequentes e muitas vezes duradouros, encontrando-se, além disso, fechada de forma contínua há mais de dois anos. A formulação mais rigorosa seria, por isso, a de que a estrada da Encumeada ao Paul da Serra tem um historial de fechos frequentes ao longo de mais de uma década e está, no ciclo actual, encerrada consecutivamente desde Janeiro de 2024.