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Crónicas

Os amigos de toda a vida

Ainda falamos de livros, de músicas e ainda somos as mesmas miúdas

A redoma em que vivi até aos 15 anos, protegida de tudo e sempre debaixo da asa das tias, da prima ou da minha mãe, definiu parte do que ainda sou, mas os efeitos dessa vida que quase nunca ia além do Laranjal, do grupo de jovens e das festas da paróquia eram ainda mais evidentes quando cheguei ao secundário. A minha mãe e a minha prima Ana alimentaram a ideia de que devia seguir ciências, mas eu decidi que seria mais feliz a estudar História e Literatura e todas as outras disciplinas do programa da área D, mesmo as que nem sabia o que eram.

As duas pessoas que velavam pela minha educação não viam futuro naquele caminho e a minha mãe jogou o último trunfo: se era adulta para escolher, também seria para tratar de todos os papéis, da matrícula ao passe do autocarro, dos livros, cadernos, lápis. Dali em diante só podia contar com a assinatura como encarregada de educação e duas reuniões por ano com o diretor de turma. Foi um castigo e, se tivesse dúvidas, bastava vê-la, sentada junto a janela da sala da televisão, de cara fechada e sem interesse no meu horário da tarde, no anexo da Jaime Moniz com vista para o Mercado.

A direção da escola partilhava as mesmas opiniões da dona Celina sobre os alunos de letras e humanidades, a quem reservava as piores instalações com a justificação de eram muitos, mas a verdade é que se entendia que aquela multidão que, todos os dias, enchia o Girassol estava ali para fugir à Matemática e acabar o secundário. Os melhores, os que vinham do campo e alguns rapazes (que eram poucos) ficavam nas turmas da manhã; os outros iam para a tarde, o que era quase o mesmo que ser considerado como aluno de segunda categoria e pouco promissor. A minha prima e a minha mãe não esconderam o desgosto.

Eu aceitei o castigo e encarei o preconceito o melhor que consegui. Não sei sequer se pensei muito, tinha 15 anos e passara a minha vida toda dentro daquela redoma do Laranjal. Os anos nos Ilhéus, entre rapazes e raparigas da cidade e com histórias diferentes das minhas, mostraram-me a forma de sobreviver sem grandes estragos num ambiente que jogava contra mim. Não tinha a origem certa, o corpo certo, nem a roupa adequada e, misturada naquela multidão de raparigas no Girassol, era mais uma e isso foi libertador. E, além disso, podia acordar às oito, tomar o pequeno almoço, estudar e arranjar-me sem pressa.

O complicado era não conhecer aquelas caras e os anos e anos a ler em cima do terraço não me tinham preparado para começar uma conversa sem parecer intrometida ou estranha. E foram estranhos aqueles primeiros dias. Eu sentei-me no meio da sala, havia gente atrás e à frente sentou-se uma rapariga baixa, de óculos grandes, camisa aos quadrados e uma gravata de napa. Sorriu-me e eu retribui, mas foi num feriado, num daqueles furos em que fomos todos para o pátio do liceu que começámos a falar. Por essa altura, ainda sob a influência do teatro da paróquia, eu sonhava ser actriz e falei disso.

E ela não riu, ouviu tudo e achou graça e depois foi comigo ao arquivo e ao registo civil, que eu queria fazer uma árvore genealógica. Nesse dia, quando chegou a casa, a Raquel disse à mãe que tinha feito uma amiga e os intervalos deixaram de ser tão solitários. Falámos de tudo, de livros e sabia todas as canções que davam na rádio. Somos amigas desde esse dia, faz em Outubro 40 anos e estivemos na vida uma da outra sempre, nos momentos complicados e nos felizes. Trabalhamos lado a lado nos jornais, crescemos juntas e mudamos de vida no mesmo dia, quando o desemprego nos apanhou aos 40 e poucos.

Ainda falamos de livros, de músicas e ainda somos as mesmas miúdas, mas agora falamos de doenças em vez de falar de rapazes. E tantos anos depois, quando penso no caminho feito e na amizade que guardo tenho a certeza que fiz a escolha certa em estudar humanidades no Girassol, ser de tarde e estar naquela escola sem condições foram detalhes. Os detalhes moldam o caminho, mas não impedem de continuar. O livro sobre Herberto Helder da Raquel Gonçalves e da Rafaela Rodrigues, lançado este sábado na feira do livro do Funchal, é a prova disso.