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Estado social e bem-estar animal em jogo nas eleições dinamarquesas

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Foto Shutterstock

Economia, imigração e ambiente lideram preocupações dos dinamarqueses, na campanha para as eleições legislativas de 24 de março. Apesar das atenções em torno da Gronelândia no início do ano, os debates têm-se centrado em assuntos domésticos.

"Um dos grandes temas é a qualidade da nossa água, que está ameaçada, assim como as condições de vida. Mas sobretudo a imigração", resumiu Rebecca, 23 anos, na praça do município, em Copenhaga. "Muitas pessoas têm medo de que haja mais imigrantes. Muitos partidos querem retirar imigrantes do país", disse. Também segundo Eske, de 25 anos, "a imigração tornou-se um grande tema outra vez".

A Dinamarca tem uma das políticas migratórias mais restritivas da Europa e a defesa de uma imigração controlada é transversal ao centro-esquerda e à direita. "A direita é muito dura [em relação à imigração] e isso estende-se a todo o centro do espectro político. Há só alguns partidos da esquerda que não querem deportar imigrantes", disse à Lusa Emil, de 37 anos.

Entre os jovens, as preocupações concentram-se sobretudo no clima e ambiente, de acordo com um estudo da empresa Epinion para a rádio pública dinamarquesa. A qualidade da água e as condições em torno da criação de porcos, um dos mais importantes sectores económicos no país, têm também ocupado espaço na campanha. O ambiente, sustentabilidade e bem-estar animal têm também tido um lugar central, à boleia do impacto público causado por um documentário sobre a criação de porcos na Dinamarca.

Nas ruas de Copenhaga, um núcleo de votantes progressistas, onde os sociais-Democratas de Frederiksen ganharam em 2022, muitos mencionam a questão da suinicultura no país. Os cartazes do Alternativet, um pequeno partido verde progressista sem assento parlamentar, fazem alusão ao problema, assim como os do Radikale, do centro-esquerda, que mostram uma fotografia de um conjunto de porcos apinhados num espaço demasiado pequeno.

"Os nossos porcos têm muito más condições de vida. Somos um país que produz muitos porcos, a maioria para exportação", disse Rebecca.

"Há demasiados [porcos] num espaço muito pequeno. Muitos deles morrem ou são maltratados", contou à Lusa Michael, de 73 anos, num parque em Gladsaxe, um subúrbio de Copenhaga onde os Social-democratas de Mette Frederiksen tiveram uma derrota histórica nas eleições municipais de novembro do ano passado.

O tema tem-se tornado uma bandeira da esquerda. "Eu acho que temos que reduzir a produção de porcos", defendeu Emil. "A minha impressão é a de que as pessoas das zonas rurais também estão cientes dos malefícios destas grandes quintas de porcos, da poluição que provocam", disse.

A Dinamarca e os vizinhos escandinavos gozam de uma reputação de sociedades sustentáveis e verdes. Vários dos copenhaguenses com quem a Lusa falou dizem que esta reputação é, em boa parte, uma fachada. "Não temos implementado assim tantas medidas verdes", disse Emil.

Iben, de 73 anos, tem dedicado muito do seu tempo a protestar publicamente contra esta indústria. "Temos mesmo a reputação errada, quando se trata da forma como tratamos os animais", disse à Lusa, vestida num grande fato insuflável de porco. "Infelizmente, só os partidos da esquerda se importam com isto", disse.

De país verde a estado social robusto, na ordem do dia estão também as condições de vida e o acesso aos serviços públicos. A proposta da primeira-ministra, em fevereiro, logo no início da campanha, de reintroduzir um imposto sobre as grandes fortunas, abolido em 1997, tem criado grande debate público. A contestação vem, sobretudo, dos partidos à direita e do empresariado. 

Alexander, de 23 anos, teme que esta venha a empurrar as empresas dinamarquesas para fora do país. Se saírem, disse, "não conseguiremos atrair pessoal de qualidade elevada" para as empresas.

Mette Frederiksen diz que a receita servirá para uma reforma na educação, com medidas como a redução do número de alunos por turma. Para os defensores da medida, esta é uma resposta ao aumento da desigualdade no país.

Os dinamarqueses votam a 24 de março em eleições legislativas antecipadas, foram pela primeira-ministra, Mette Frederiksen, a 26 de fevereiro, numa sessão do parlamento dinamarquês.