O lugar mais acolhedor do mundo
Quando o primeiro autocarro travava na paragem para carregar passageiros já a minha mãe maldizia a sorte de se levantar às seis da manhã, que não havia pior do que sair da cama no melhor do sono para tratar do almoço do meu pai e coser os botões em falta na roupa de trabalho. E todos os dias o meu pai descia os degraus da entrada à justa, que a dona Celina tinha a arte do suspense, nunca se sabia se era aquela a vez em que se perdia o ‘horário’.
A vida no Laranjal era uma espécie de milagre do quotidiano e, se nos perguntassem, não saberíamos explicar como estávamos vivos, alimentados, com as vacinas em dia e consultas no dentista, nem como tínhamos sempre roupa lavada e passada para vestir antes de correr escada abaixo para chegar às aulas antes do toque de feriado. A minha mãe era uma pessoa desorganizada, que acumulava papéis dentro da bolsa e das gavetas e a quem faltava a paciência para as miudezas domésticas.
As circunstâncias obrigaram a que fosse apenas dona de casa, mas nunca se conformou com a rotina do lava, esfrega e arruma. A minha mãe fazia uma arrumação por semana, quando mudava os lençóis das camas e me mandava varrer escadas e quintal. No resto dos dias, bordava e empurrava a vida doméstica para mim, quase sempre sob ameaça ou com recurso a suborno: “se lavares a loiça deixo-te ir ao cinema”; “se não arrumares a cozinha não vais às reuniões do grupo de jovens”.
Enquanto eu arrastava os pés pela casa, mortificada com aquelas ordens que, tinha a certeza, só me calhavam a mim. As outras miúdas da escola ou tinham empregadas ou mães organizadas. Eu tinha a dona Celina, a senhora de meia idade que aviava trabalho, sentada nas cadeiras de vime da sala da televisão com o rádio ligado nas notícias e nos programas da RDP. E era isso que lhe dava sentido, saber mais do que a quarta de classe adultos e ganhar dinheiro para juntar à reserva que havia debaixo do forro da primeira gaveta da cómoda.
Por detrás do cabelo grisalho e dos fatos de saia casaco quando ia falar com o diretor de turma, havia uma mulher cheia de humor e curiosa, que se preocupava mais com as nossas notas do que com o estado dos nossos cadernos, que nos ouvia mais do que cuidava da casa. E que, tantos anos depois, continuava a ter esperança nos sonhos do meu pai, do plano para fazer aguardente à ideia de construir vasos de cimento para vender.
A desordem e o facto de queimar o arroz mais vezes do que era normal acabaram por ser parte do nosso milagre quotidiano, faziam parte da minha mãe. As chaves, as roupas, as coisas que, de um modo geral, desapareciam ou, como dizia, “se encantavam”; a impossibilidade de sair de casa sem ser a correr; as tardes de loja para loja e a indecisão para comprar um vestido e a viagem de regresso, o Duarte e eu no mesmo banco para poupar um bilhete de autocarro. Tudo isso era ela, a pessoa que, no meio do caos, tornava a casa do Laranjal o lugar mais caloroso e acolhedor do mundo.