Estará mesmo o desemprego a baixar na Madeira?
A notícia divulgada na passada segunda-feira, pelo Instituto de Emprego da Madeira (IEM) e que o DIÁRIO intitulou "Madeira regista a maior redução homóloga do desemprego registado no país", é factual uma afirmação verdadeira do ponto de vista comparando Janeiro de 2026 com Janeiro de 2025, ou seja são menos 961 desempregados inscritos, quando comparados os dados de um e de outro Janeiro de cada ano.
Madeira regista a maior redução homóloga do desemprego registado no País
A Região Autónoma da Madeira registou, em Janeiro de 2026, a maior diminuição homóloga do desemprego registado entre todas as regiões do País. De acordo com os dados divulgados pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), a Região contabiliza menos 961 desempregados face a Janeiro de 2025, o que corresponde a uma redução de -13,9%.
Mas a leitura completa dos dados revela uma realidade mais complexa. Comecemos pelo lado positivo da análise. Este é o melhor Janeiro em mais de duas décadas. De acordo com a série mensal - recuemos até 2000 -, Janeiro de 2026 regista 5.973 desempregados registados, por isso analisando os mesmos meses neste período de 26 anos, trata-se do valor mais baixo para este mês em 23 anos. Ou seja, é preciso recuar a Janeiro de 2003 (5.209) para encontrar um Janeiro com menos desempregados. Por contraposição nestes 23 anos, Janeiro de 2013 estavam registados 24.472 desempregados.
Impõem-se, portanto, as perguntas: Estará mesmo o desemprego a baixar na Madeira? Ou haverá um aumento face a Dezembro?
Mesmo nos primeiros anos da década de 2000, os valores de Janeiro eram sistematicamente superiores aos actuais. A afirmação de que é o “melhor Janeiro em 23 anos” confirma-se, mas tem mais para análise, porque efectivamente, por norma, Janeiro é um mês de aumento do desemprego por comparação com o mês anterior (Dezembro). Segundo os nossos registos que remontam a 1970, só por cinco vezes em 57 anos, em Janeiro houve uma diminuição do desemprego face a Dezembro (2024, 2022, 2018, 1988 e 1971). Ou seja, em apenas 8,7% das vezes registou-se uma quebra mensal.
Da mesma forma, comparando a evolução homóloga de Janeiro de 1970 a Janeiro de 2026, temos então 30 anos em que houve uma diminuição homóloga e outros 26 onde houve um aumento do desemprego homólogo. Muito mais equilibrado. O certo é que desde a maior crise de emprego, em 2013, até à data, apenas em três Janeiros (2015, 2021 e 2023) registou-se um aumento homólogo do desemprego. Na última crise, ocorrida sobretudo em 2021, por causa da pandemia de covid-19, o desemprego caiu 70,6%, de Janeiro de 2021 (20.349) aos 5.973 à data.
Portanto, esclarecida essa variação homóloga e mensal, queremos saber como tem sido o desemprego no último ano e nos últimos meses? Eis a verdade: o desemprego registado baixou nos seis meses posteriores a Janeiro de 2025 (de Fevereiro a Julho) e subiu nos últimos seis meses, ambos de forma consecutiva. Mais precisamente, e face a Julho de 2025 (5.419), cresceu em Agosto (5.442), em Setembro (5.467), em Outubro (5.507), em Novembro (5.607), em Dezembro (5.738) e agora em Janeiro de 2026.
Estes seis aumentos mensais consecutivos, tendência que se iniciou no final do Verão de 2025 tem sido muito pouco frequente nos últimos anos. O histórico revela que o maior aumento mensal consecutivo ocorreu entre Março de 2020 e Janeiro de 2021, durante 11 meses, e antes tinha ocorrido entre Setembro de 2011 e Abril de 2012, durante 8 meses seguidos, e antes disso entre Setembro de 2009 e Março de 2010 (7 meses) e Outubro de 2008 e Junho de 2009 (9 meses), mas também de Setembro de 2002 a Março de 2003 (7 meses). Isto tudo nos últimos 26 anos.
Além disso, em resposta à pergunta primordial, Janeiro de 2026 representa o valor mais elevado desde Abril de 2025 (6.333). Ou seja, é o ponto mais alto em nove meses no desemprego registado.
Portanto, é possível - e neste caso acontece - que o desemprego esteja mais baixo do que há um ano, mas esteja a subir de forma contínua nos meses mais recentes. Mas, perguntará eventualmente o leitor, o desemprego está "mau"? Depende da perspectiva temporal. Se a comparação for com o passado recente (2012-2015), quando a Região ultrapassava frequentemente os 20 mil desempregados, a situação actual é incomparavelmente melhor. Se a análise for de curto prazo, os dados mostram um movimento claro de subida nos últimos seis meses.
Não se trata de um aumento explosivo, mas é uma tendência consistente que merece acompanhamento. Portanto, é verdade que Janeiro de 2026 é o melhor Janeiro dos últimos 23 anos. É verdade que o desemprego registado aumenta há seis meses consecutivos. E é verdade que Janeiro de 2026 é o valor mais alto dos últimos nove meses. A narrativa do IEM da “maior redução homóloga” está correcta, mas omite o facto de existir uma inversão recente da tendência mensal.
A Região Autónoma da Madeira continua muito abaixo dos níveis históricos de desemprego da última década. No entanto, os dados confirmam um abrandamento na trajectória descendente e uma recuperação gradual do número de inscritos no Instituto de Emprego desde o final do Verão de 2025, algo que não se via desde a crise pandémica. Ou seja, o desemprego não está nos níveis críticos do passado — mas já não está a cair.