Um alerta à cidadania: Portugal e os riscos do presente

Nasci nos anos sessenta. Cresci num país marcado pela pobreza, desigualdade e guerra. Vi colegas irem descalços para a escola, jovens mobilizados para a guerra colonial — alguns não regressaram — e famílias forçadas a emigrar para França, Venezuela ou África do Sul.

No 25 de Abril, estava numa aula quando nos anunciaram que Portugal vivia uma revolução. Vivi a esperança e os excessos desse tempo, a queda do Muro de Berlim e as profundas mudanças que moldaram a Europa democrática.

Nunca imaginei voltar a sentir sinais de regressão. Nos últimos anos, assistimos ao crescimento de forças populistas e nacionalistas que pressionam instituições, fragilizam consensos e aprofundam divisões. Portugal não está imune.

O crescimento do Chega não se explica apenas pelo descontentamento ou voto de protesto. Há também a transformação da política em espetáculo. Debates tornaram-se confrontos ruidosos, recortes virais substituem reflexão e a indignação permanente gera audiências. O partido domina essa linguagem e beneficia dela.

Parte do comentário político deixou de escrutinar para justificar ou relativizar. A repetição constante cria normalização: o que antes chocava passa a parecer comum. Assim, um partido com discurso moralizador nem sempre é confrontado com as suas próprias contradições.

Muitos eleitores sentem frustração, insegurança e perda de confiança nas instituições. O populismo oferece respostas simples para problemas complexos, identifica culpados e promete ordem. Converte ressentimento em mobilização política.

Num mercado mediático competitivo, a polémica vende. Mas quando a comunicação social privilegia o ruído em detrimento da investigação consistente, a democracia enfraquece. O escrutínio não pode ser seletivo nem passageiro.

A maior vitória do populismo pode não ser eleitoral, mas cultural: tornar-se “normal”. A democracia raramente desaparece de repente; desgasta-se quando o insulto substitui o argumento e a simplificação substitui o debate sério.

Observar estes sinais não é alarmismo. É responsabilidade cívica. Preservar a democracia exige memória, espírito crítico e exigência — todos os dias.

Patrício Viveiros