Este é o melhor Marítimo de sempre a jogar fora de casa?
Há décadas, mais precisamente desde foi fundado em 1910, jogar fora da ilha sempre foi uma das valias que o Club Sport Marítimo não tinha como ponto forte de boas campanhas, fosse na primeira divisão (I Liga) fosse na segunda divisão (II Liga), o forte do clube madeirense era o 'Caldeirão dos Barreiros'.
Foi na sua própria casa que cimentou presença entre os grandes do futebol nacional - ultrapassado em presenças apenas por SL Benfica, FC Porto e Sporting CP (os únicos totalistas), mas também por Vitoria SC (Guimarães), Belenenses, Vitoria FC (Setúbal), SC Braga, Académica de Coimbra e Boavista, sendo que destes últimos cinco, só os dois rivais do Minho continuam entre os grandes. Marítimo vem logo a seguir, acumulando 43 épocas na primeira prova e mais umas várias passagens pela segunda prova.
É precisamente ali que está pela terceira época consecutiva, depois da descida de divisão em 2022/2023. Esta época, com 12 jornadas para terminar a competição, a equipa madeirense lidera isolado com 44 pontos, mais 6 que o segundo classificado e mais 8 que o 4.º classificado, sendo que o terceiro, o Sporting B, não pode subir de divisão. Muita dessa vantagem foi devido ao desempenho fora de portas, longe de casa, tanto que o Marítimo tem mais vitórias fora do que vitórias e empates em casa. mas será que esta já é a melhor época do Marítimo a jogar fora do seu estádio?
Recorremos à melhor fonte de estatística do futebol - ZeroZero - para tirar essa dúvida e, na prática, comparar todas as épocas desde 1975/1976 até agora, seja na primeira seja na segunda divisão, seja na I Liga seja na II Liga. Olhamos mesmo às melhores épocas do clube na divisão principal que garantiram as melhores classificações e, portanto Mesmo faltando 6 jogos por disputar longe do Estádio do Marítimo, a equipa já conquistou 9 vitórias em 11 jogos (um empate e uma derrota), ajudando a amealhar 27 dos 44 pontos até à data.
Ou seja, essas 9 vitórias fora representam quase 2/3 dos pontos alcançados até agora na prova. Os restantes 17 pontos dizem respeito ao outro empate fora, mais 4 em casa e mais 4 vitórias nos Barreiros. Ou seja, quando a fortaleza deveria ser o seu estádio, esta época, na qual o clube aposta em voltar ao convívio dos grandes, tem sido no desempenho nos outros estádios do continente que o clube maritimista se escudou para ter aquele que será uma das melhores prestações de sempre, 61% dos pontos conquistados e 69% das vitórias.
Esta última jornada (22.ª) os insulares foram a casa do Vizela ganhar por 3-0 e, além dos importantes 3 pontos amealhados na procura pela subida de divisão - nada está ganho e ainda faltam 12 jornadas e 36 pontos em disputa -, o Marítimo também deu um passo importante para bater o seu próprio recorde de vitórias no reduto dos adversários.
Com referido, recorrendo aos dados do portal ZeroZero, fomos até à época 1975/76 e em nenhuma delas, seja na 1.ª seja na 2.ª divisão, seja nas últimas épocas na I Liga e desde as últimas três épocas na II Liga, o Marítimo nunca tinha tido tantas vitórias fora de portas e ainda com tanto por jogar. É aí que está o senão, ainda faltam jogar 6 jogos fora e 6 em casa.
A excepção, ou seja com todos os jogos fora realizados, foi a primeira no regresso à II Liga. Em 2023/2024, o Marítimo conquistou 10 vitórias fora de portas e 8 em casa, ou seja fez muito parecido do que faz neste momento, mas desta feita - amenos que corra tudo mal a partir daqui - está muito melhor fora e menos bem em casa.
Nessa época o clube terminou com um saldo de mais de metade dos 34 jogos com vitórias, amealhando 64 pontos, 30 dos quais resultantes das referidas 10 vitórias fora de portas. Ou seja, o desempenho vitorioso longe do seu estádio representou quase 47% da pontuação final que, mesmo assim, não deram para a subida de divisão logo na época seguinte após descer.
Na época imediatamente a seguir, 2024/2025, o clube ganhou 7 jogos fora de portas. O problema foi em casa, onde venceu apenas 3. Esta época, já fez conquistou mais vitórias fora como em casa. Como é bom de ver, com um desempenho tão pobre em casa, apesar da relativa boa prestação fora (empatou e perdeu mais vezes no seu campo do que no campo dos adversários), a subida de divisão ficou adiada.
E mesmo se recuarmos a todas as épocas no passado, algumas das quais muito bem sucedidas e que valeram qualificação para 9 edições das competições europeias (Taça UEFA/Liga Europa), conseguimos encontrar nada parecido com o que tem sido feito esta época. As melhores épocas fora nos últimos anos tinham sido 2007/2008, com 6 vitórias e que valeu uma qualificação europeia, 2001/2002, também com 6 vitórias, ambas na I Liga, mas sobretudo na II Divisão em 1984/1985, também com 9 vitórias fora, e na mesma prova em 1976/1977, com seis vitórias fora.
É verdade que pode-se alegar que não há comparação entre II Liga e I Liga, sobretudo em termos de dimensão e dificuldade dos adversários, mas se olhar novamente para a classificação nesta época, numa prova dominada pelo Marítimo, verá que a diferença entre o último classificado e os últimos (Paços de Ferreira e Penafiel) é de 21 pontos e que entre esses dois e o 4.º classificado (Torreense) é de 10 pontos, sendo de 9 pontos entre a equipa que poderá disputar a 'liguilha' de subida à I Liga e a que disputará a 'liguilha' para não descer à Liga 3 (3.ª divisão). Na I Liga, por exemplo, o actual líder, FC Porto tem 51 pontos de diferença para o último classificado...
A competividade na II Liga é tão alta que ainda pode acontecer de tudo. Mas a verdade é que o trajecto feito pelo Club Sport Marítimo da Madeira até agora, mesmo com mudança de treinador (o primeiro foi recrutado para a segunda liga inglesa) e mesmo sendo a única equipa fora de Portugal continental na competição, augura bons ventos para levar o clube de volta ao convívio dos grandes.
Naquela que é, para já, uma das melhores épocas de sempre, sobretudo fora de portas promete ser a melhor de sempre, assim continue o desempenho personalizado de um clube que está com a 'estrelinha de campeão'.