Kallas responde aos EUA que valores da civilização europeia permanecem intactos
Alta representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança rejeita ideia de se criar um Exército europeu
A chefe da diplomacia europeia defendeu hoje a estabilidade dos valores da Europa face às críticas dos Estados Unidos e apresentou as linhas orientadoras de um futuro europeu independente e centrado na expansão das relações.
A defesa dos valores europeus foi feita pela alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas, ao abrir o terceiro e último dia da 62.ª sessão da Conferência de Segurança de Munique (sul da Alemanha), que começou sexta-feira.
"Perante aqueles que dizem que existe uma Europa decadente e 'woke', a nossa civilização não está a enfrentar qualquer tipo de eliminação. Aqueles que já são membros querem que esta união assuma um papel mais forte no mundo, que defenda os nossos valores, que cuide das nossas pessoas e que impulsione a humanidade para a frente", declarou Kallas.
"Mas, acima de tudo", concluiu Kallas, "sabemos quem somos e sabemos o que defendemos".
Numa referência direta ao discurso proferido no sábado na conferência por Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, Kallas manifestou descontentamento com um "ataque à Europa que parece estar na moda".
"A mim pareceu-me um discurso dirigido, em parte, ao povo norte-americano", acrescentou a chefe da diplomacia europeia.
Kallas explicou que o futuro da Europa passa pela "estabilidade, crescimento e prosperidade para as suas populações" e que "a melhor forma de o alcançar é avançar juntos", através da expansão da "maior rede de comércio livre do mundo", que "foi construída pela União Europeia".
"Cerca de 80 países estão atualmente abrangidos por acordos comerciais da UE. E, para além do comércio, estamos a criar parcerias em matéria de segurança e defesa, dez até ao momento, incluindo com a Índia e a Austrália só este ano. Os países querem diversificar as suas parcerias", afirmou Kallas, que recorreu à cultura popular para explicar melhor as suas intenções.
"É preciso inspirarmo-nos no universo de super-heróis da Marvel: Europeus, uni-vos", declarou Kallas.
"Os heróis fazem-se pelos caminhos que escolhem, não pelos poderes que recebem, e o caminho da Europa é claro: defender a Europa, proteger a nossa vizinhança e construir parcerias em todo o mundo", concluiu.
Afastada criação um Exército europeu
A chefe da diplomacia europeia insistiu na rejeição da ideia de criar um Exército europeu, que classificou como pensamento ilusório, defendendo que o verdadeiramente urgente é reforçar as Forças Armadas dos países europeus.
"A minha proposta seria que não percamos tempo a falar de coisas novas quando temos de nos concentrar no que é realmente urgente neste momento, que é reforçar os nossos exércitos", afirmou a alta representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, na 62.ª sessão da conferência que termina hoje em Munich.
Kallas assinalou que falar da criação de um Exército europeu "é, de certo modo, neste momento, uma forma de pensamento ilusório" e sublinhou que os Estados-membros da UE devem reforçar-se militarmente para também fortalecer o pilar europeu na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).
A chefe da diplomacia europeia argumentou que a criação de um novo Exército europeu levantaria redundâncias, tendo em conta a existência da Aliança Atlântica.
"O problema é que, quando surge uma crise real, tudo se resume à cadeia de comando: quem dá ordens a quem e como funciona? Se houver dois desses exércitos aos quais o exército (nacional) pertence, então, em termos de crise, cria-se um vazio e isso é extremamente perigoso", explicou Kallas.
A alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança já tinha manifestado anteriormente a sua rejeição à ideia de criar um Exército europeu, proposta defendida por países como Espanha.
"Quem afirma que precisamos de um Exército europeu talvez não tenha pensado de forma prática, porque não foi primeiro-ministro", disse Kallas, em 02 deste mês, numa conferência de imprensa com o primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Store.
"Há um único exército e um único orçamento de defesa. Assim, se já se faz parte da NATO, não se pode criar um exército separado além do que já se tem, porque, numa situação de crise, o mais importante é a cadeia de comando: quem dá ordens a quem", afirmou então a antiga primeira-ministra estónia.
A Conferência de Segurança de Munique é considerada o principal encontro mundial de especialistas em políticas de segurança. Mais de 60 líderes mundiais e cerca de 100 ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa participam nesta 62.ª edição.