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Crónicas

Os mascarados

Embora fossem quase sempre feios e grotescos, as melhores lembranças do Entrudo são os mascarados naquele improviso estranho e eu, em cima, no muro do quintal, a vê-los passar

A vida mudou de muitas maneiras entre o ponto em que nos encontramos e os meus primeiros 15 anos. A minha existência, da rotina de todos os dias aos sonhos que povoavam a minha cabeça, não tem comparação possível a não ser talvez às princesas, aos zorros e demais fantasias das crianças na sexta-feira antes das férias do Carnaval. E até mesmo as crianças, entre risos e birras, são diferentes daquele amontoado de miúdos que, todos os anos, se juntava no recreio da escola com as caras tapadas por máscaras de cartolina.

Eu tenho o momento numa fotografia com uma coroa e uma máscara e franjas de papel de seda às cores cosidas na bainha da saia. O conjunto tem um quê de grotesco, mas não me lembro de me sentir triste. Aos oitos anos, na sexta-feira antes das férias da segunda classe, só a chuva podia estragar o dia dos mascarados. Quando não chovia a minha mãe enfeitava o quintal com serpentinas, abria a porta do caminho para quem quisesse entrar e provar as mal-assadas (ou malassadas) com mel de cana.

Os vizinhos não iam demorar a sair à rua com o que havia em casa e com uma máscara de plástico da venda. Os homens vestiam-se de mulher; as mulheres de homens e era vê-los desfilar pelo caminho com as roupas esquecidas do casamento dos avós. As pessoas disfarçavam-se de velhos e velhos divertiam-se a tentar adivinhar quem era quem pelo formato do corpo. E até o meu pai subiu uma vez o Lombo dos Aguiares com um vestido esquecido por uma turista alemã no hotel Girassol e ainda acrescentou um chapéu de palha na cabeça, uns brincos nas orelhas e uma carteira no braço.

Embora fossem quase sempre feios e grotescos, as melhores lembranças do Entrudo são os mascarados naquele improviso estranho e eu, em cima, no muro do quintal, a vê-los passar. É justo acrescentar as duas vezes que a minha tia Alice e o meu tio Humberto me levaram a ver o cortejo de sábado na cidade e eu fiquei tão contente que não falei de outra coisa na escola. As plumas, os vestidos, as lantejoulas, era tudo tão brilhante e diferente dos nossos mascarados. O meu entusiasmo foi acolhido com desdém, a maioria não tinha visto ao vivo e eu nunca fui bem sucedida a gabar-me. Foi mais ou menos como a televisão a cores, acharam todos que estava a mentir.

A tranquilidade do meu Carnaval iria estilhaçar-se ao mudar de escola e ao entrar na adolescência, ao perceber que, no recreio, entre as raparigas que se sentavam no muro para avaliar as pernas aos rapazes que jogavam futebol havia histórias mais bonitas, disfarces a condizer com assaltos, enterro do osso e concursos em hotéis, dos que davam prémios bons. E lá estava a Lina Marta, muito calada e a tentar ser transparente, a ouvir as peripécias na costureira por causa do fato, os incidentes e os azares, os rapazes que tinham visto e gostado. Às vezes havia fotografias, umas mais nítidas, outras com cabeças cortadas, mas que davam uma ideia de como nem tudo era como Laranjal.

Não sei precisar os anos em que sonhei entrar numa trupe no cortejo ou em bailes e festas num hotel. Fui princesa, Cleópatra, odalisca, peça de dominó, dama antiga ou Loucos Anos 20. Fui tudo na minha cabeça e teria sido a pessoa mais feliz se alguém me tivesse convidado, mas o tempo andou e a adolescente infeliz deu lugar a uma jovem que gostava de roupas pretas e passou a dispensar o Carnaval. Da menina de 14 anos, que tinha a impressão de estar a ver a vida pela janela, ficou a memória das tardes de Carnaval com o quintal enfeitado com serpentinas e a porta aberta a quem quisesse entrar.