Acampada no Porto tem espaço para crianças, jornal, 'site', posto médico e cantina
A dias de assinalar um mês desde o arranque do protesto pela habitação na Praça D. João I, no Porto, a Acampada tem um espaço para as crianças, jornal e 'site', além da cantina popular e do posto médico.
Adriana Ferreira, de 47 anos, é animadora sociocultural e técnica psicossocial, e conta à Lusa que se tem voluntariado junto do espaço "Resistir a Brincar", onde as crianças podem desenhar, fazer cartazes ou outras ocupações na praça, porque tinha "um sonho desde 1992, de que um dia a malta viesse à rua e não arredasse mais pé".
"Estes miúdos, à custa da habitação, conseguiram trazer a malta à rua e conseguiram de certa forma cumprir um sonho que é meu e acho que é de toda a população a nível geral e portuguesa, não é? Desde o 25 de Abril que nos foi prometido. Essa promessa nunca foi concretizada, pelo menos na vida que levo. Vai-se ver, na educação depois vai-se ver, na saúde depois vai-se ver, e os grandes investimentos são sempre o que não percebemos e não vemos, não podemos usufruir", afirma.
Com um filho de 17 anos, lembra que o projeto para os mais novos permitiu colmatar uma lacuna com o protesto, muitas vezes "limitado a coisas para adultos, e uma assembleia [popular] que é muito chata" para esse público.
Ali está, ao lado de uma atriz, uma artista plástica e uma empresária, dia após dia, a fazerem artes plásticas e manuais, roupas e outras atividades com crianças e pais de forma inclusiva, tendo arrancado a 17 de outubro com a ideia.
Desde então, chegam a passar por ali 30 a 35 crianças por dia ao fim de semana, estima, e entre uma e duas dezenas em dias de semana, ao final da tarde, tudo completamente gratuito e livre de inscrições, "sem ter de ter um cartão Porto.", apenas "aparecer e querer brincar".
Um desenho de uma casa é, muitas vezes, a base do início da brincadeira, mas cartazes, brincadeiras e outras coisas, tendo já experimentado ioga para crianças e a hora do conto, vão surgindo - e procuram novas propostas para o que fazer com a 'pequenada'.
Este é um dos muitos fenómenos paralelos ao protesto mais convencional, com discursos, palavras de ordem, coros e marchas, que se tem juntado à Acampada, já célebre pela montagem de tendas, e que tem resistido ao frio, ao passar dos dias e a três cargas policiais que tem drenado o movimento de recursos, num local a que algumas pessoas já chamaram, em conversa com a Lusa, de "centro social não oficial".
É o caso da cantina popular, que alimenta gratuitamente todos os dias 200 a 300 pessoas por dia desde o final da tarde, que após cada intervenção da polícia tem ficado sem recursos, voltando a restabelecer-se via doações e força de vontade, mas também de outros símbolos.
O posto médico, que inclui médicos credenciados quer em medicina geral, quer em psicologia e psiquiatria, além de socorristas, tem tido também a presença de outros profissionais de saúde, como osteopatas, que respondem tanto a pessoas agredidas nas cargas policiais como a outras maleitas, tudo de forma gratuita.
No último fim de semana, nasceu o "Tendão", o jornal da Acampada do Porto, cujo número zero traz textos críticos e políticos, fotografias, desenho, 'cartoons', poemas e até uma sopa de letras.
"Somos o Tendão que dá força ao corpo que são estas tendas. (...) Daqueles que nos querem recusar o direito à habitação e a uma vida digna comum a 'todes', seremos nós o tendão de Aquiles, a fraqueza e, portanto, o ponto de derrota, por sermos mais e mais fortes e mais resistentes", pode ler-se num dos textos.
Também foi construído e divulgado recentemente um 'site', www.acampadaporto.eu, que complementa a página na rede social Instagram, tem dado ordem à organização popular na praça, com ordens de trabalho, atas das assembleias populares, recursos como o manual de primeiros socorros e de defesa, contactos e convites a que as pessoas se juntem a grupos de trabalho, façam propostas, submetam pedidos de intervenção ou outros contactos.
O fenómeno da Acampada, que no Porto vai reunindo centenas de pessoas a cada dia de semana e chega aos milhares ao sábado e domingo, estende-se ao domínio cultural, com concertos de artistas como os Clã, Manuel Cruz, João Não & Lil Noon e outros a atraírem participantes, a par de sessões de cinema, conversas e outras propostas.
Ao mesmo tempo, a dinâmica mais jovem leva, até, a uma página no Instagram, "Vi-te na Acampada", em conjunto com a de Lisboa, em que o romance e a ironia se juntam.
"Há um gato que de cada vez que aparece as minhas pernas tremem, eu juro que caio, certamente é da equipa de segurança, porque eu preciso que ele me segure", pode ler-se numa das publicações.