O Futuro Joga-se no Mar
Durante décadas, os oceanos foram encarados como um espaço global aberto, regulado pelo direito internacional, pela liberdade de navegação e pela estabilidade proporcionada pela predominância naval dos EUA. Contudo, o regresso da rivalidade entre grandes potências está a desafiar esta visão e a devolver os mares ao centro da política internacional.
Os mares nunca deixaram de ser uma questão de poder. Embora o período pós-Guerra Fria tenha alimentado a ideia de uma ordem marítima assente na cooperação, a crescente competição entre grandes potências demonstra que os oceanos continuam no centro da disputa pela influência e pela segurança internacionais.
A relevância dos oceanos para a ordem internacional é hoje incontornável. Em primeiro lugar, constituem a principal infraestrutura da economia global. Cerca de 90% do comércio mundial é transportado por via marítima, tornando corredores como os canais de Suez e do Panamá, bem como os estreitos de Malaca e de Ormuz, essenciais para as cadeias de abastecimento e para a segurança energética mundial.
Em segundo lugar, os oceanos assumem uma importância crescente, enquanto fonte de recursos estratégicos. Para além da pesca, desempenham um papel fundamental na produção de energia e no acesso a minerais críticos indispensáveis à transição energética, à inovação tecnológica e à competitividade económica.
Em terceiro lugar, sustentam a conectividade digital global. A esmagadora maioria das comunicações internacionais e do tráfego de dados depende de cabos submarinos, transformando estas infraestruturas em ativos críticos, cuja proteção é cada vez mais relevante para a segurança económica das nações.
Neste contexto, os oceanos deixaram de ser vistos apenas como espaços de cooperação para voltarem a assumir uma dimensão geopolítica central. Os ataques dos Houthis no Mar Vermelho, a crescente projeção marítima da China no Indo-Pacífico e as suspeitas de ações híbridas russas contra infraestruturas submarinas, evidenciam o regresso da segurança marítima ao centro da agenda internacional.
Em suma, os oceanos voltaram a assumir um papel central na geopolítica internacional. A disputa por rotas, por recursos e por infraestruturas marítimas terá um impacto crescente na distribuição do poder global. Os recentes incidentes no Mar Báltico, envolvendo danos em cabos submarinos, colisões marítimas e tensões diplomáticas, evidenciam a vulnerabilidade das infraestruturas críticas num contexto de rivalidade crescente. Ignorar a importância dos mares seria, por isso, um erro num século em que a segurança, a conectividade e a prosperidade dependem cada vez mais do que acontece no mar.