A adesão às greves é sempre maior nas contas dos sindicatos?
A greve da Administração Pública, da última semana, que se estendeu à Madeira, voltou a trazer uma velha guerra de números. A Secretaria Regional de Educação apontou para uma adesão de 10,8% nas escolas e serviços sob a sua tutela. No SESARAM, a taxa divulgada foi de 20,7%. Do lado sindical, os primeiros números situavam a adesão entre os 50% e os 70%, tendo depois sido apontado um valor de cerca de 60%.
Diferenças desta dimensão estão longe de ser novidade. Ao longo das últimas décadas, são muitas as greves em que sindicatos e entidades oficiais apresentaram números substancialmente diferentes.
A explicação mais imediata é conhecida: os sindicatos puxam os números para cima e os governos para baixo. Mas será sempre assim? E poderá a posição do Governo Regional perante a própria greve ajudar a explicar algumas diferenças?
Para verificar a afirmação, consultámos notícias publicadas na imprensa regional ao longo das últimas décadas, procurando greves realizadas na Madeira em que fossem conhecidos números sindicais e oficiais. Além da diferença entre percentagens, procurámos perceber, sempre que a informação disponível o permite, como foram calculadas e a quem eram dirigidas as reivindicações.
A primeira dificuldade está na própria expressão “adesão à greve”. Nem todos estão necessariamente a calcular a mesma coisa.
Isso ficou particularmente claro na greve geral de 10 de Dezembro de 2002. A União dos Sindicatos da Madeira apontou para uma adesão de cerca de 60%, enquanto o Governo Regional admitiu apenas 3%. Uma diferença de 57 pontos percentuais, tão grande que o próprio DIÁRIO considerou, na altura, “caricatos” os números apresentados pelas duas partes.
Mas havia uma diferença importante na forma de fazer as contas. O Governo estimava os 3% tendo como referência cerca de 85 mil trabalhadores por conta de outrem existentes na Região. A USAM calculava a adesão entre os trabalhadores enquadrados nos sindicatos que tinham promovido a paralisação. Ou seja, as duas percentagens não tinham o mesmo denominador.
Na mesma greve, a diferença voltou a surgir na Educação: os sindicatos apontaram para 20% e a Direcção Regional de Educação para pouco mais de 8%. Porém, quando as contas chegaram à enfermagem, houve coincidência: Governo e sindicatos deram ambos uma adesão de 70%.
Só este caso é suficiente para contrariar a ideia de que os números sindicais são sempre superiores aos oficiais.
A análise histórica mostra também que as entidades oficiais não apresentam necessariamente taxas baixas. Em Novembro de 1997, numa greve da Função Pública, a Direcção Regional da Administração Pública e Local divulgou uma adesão de 85,6% na Secretaria Regional da Educação. Na Saúde, os números oficiais chegaram aos 44,5% nos centros de saúde e nos Marmeleiros e aos 30,8% no Hospital da Cruz de Carvalho. Na farmácia deste hospital, a adesão atingiu os 100%.
Nessa paralisação, as reivindicações tinham como destinatário o Governo da República, então liderado pelo socialista António Guterres. O Sindicato dos Professores da Madeira justificava a mobilização com o impasse negocial e a falta de propostas do Executivo nacional.
O exemplo merece atenção porque mostra um Governo Regional a divulgar taxas muito elevadas numa greve cuja contestação estava dirigida a Lisboa. Poderia, então, a posição política perante a greve ajudar a explicar os números?
Os dados consultados não permitem estabelecer essa relação.
A própria greve geral de Dezembro de 2002 funciona como contraponto. Também aí a contestação estava essencialmente dirigida ao Governo da República, devido ao novo Código do Trabalho e às políticas sociais do Executivo. A greve nacional fora convocada pela CGTP precisamente contra essas políticas.
A diferença é que o Governo da República era então PSD/CDS, liderado por Durão Barroso, e o Governo Regional colocou-se claramente contra a paralisação. Alberto João Jardim agradeceu à “maioria esmagadora” que trabalhou, classificou os grevistas como uma “minoria de socialistas e comunistas” e acusou os sindicatos de “antipatriotismo”. Nesse dia, o Executivo madeirense apresentou uma adesão global de apenas 3%.
O contraste entre 1997 e 2002 é sugestivo, mas não permite concluir que a percentagem oficial varie em função da cor política do Governo da República ou da posição assumida pelo Executivo madeirense. As greves, sectores abrangidos e métodos de cálculo são diferentes. Não existe uma série homogénea que permita estabelecer essa relação.
Aliás, a própria greve de 1997 mostra até que, num mesmo dia, os números oficiais podiam ser altos num sector e muito baixos noutro.
Na Administração Local, o STAL apontou 70% de adesão em Machico, enquanto a Direcção Regional da Administração Pública e Local dava 5%. Na Ponta do Sol, eram 60% para o sindicato e 20% para a entidade oficial. Na Calheta, 60% contra 10%. No Porto Santo, 55% contra 0%.
A diferença entre números não se explica, por isso, por uma única razão. Há que considerar o universo usado nas contas, o momento em que a informação é recolhida e a própria forma de apurar a adesão.
A greve geral de 2002 permite perceber melhor esta última questão. A nível nacional, a CGTP anunciou uma adesão de 87,72%, enquanto o Governo da República apontou para 13%. A central sindical explicou que projectou o resultado a partir da informação recolhida por piquetes em 830 empresas e de visitas a 718 locais onde funcionavam serviços da Administração Pública.
Já os dados provisórios do Ministério das Finanças reportavam-se à informação disponível às 13 horas. O próprio Ministério ressalvava que parte dos números correspondia a ausências ao serviço ainda sem confirmação de que fossem motivadas pela greve.
Há ainda que distinguir adesão de impacto. Serviços mínimos, trabalhadores escalados, horários e turnos podem fazer com que duas greves com percentagens semelhantes tenham consequências muito diferentes. Da mesma forma, o encerramento de um serviço não significa necessariamente que todos os seus trabalhadores tenham aderido.
As divergências mantiveram-se em anos mais recentes. Em Abril de 2018, por exemplo, o sindicato apontou 90% de adesão na Águas e Resíduos da Madeira, enquanto o Governo Regional apresentou 22%. Em Maio do mesmo ano, numa greve dos médicos, os números sindicais chegaram aos 75%, contra cerca de 30% contabilizados pelo SESARAM.
O histórico confirma, assim, que é frequente os sindicatos apresentarem percentagens superiores às divulgadas pelo Governo ou pelas entidades empregadoras. Em alguns casos, a diferença ultrapassa largamente os 50 pontos percentuais.
Mas não é uma regra. Existem taxas oficiais elevadas e situações em que as contas das duas partes coincidiram. Também não encontrámos elementos suficientes para concluir que os números oficiais aumentem ou diminuam consoante a greve seja dirigida ao Governo Regional ou ao Governo da República.
Mais do que uma percentagem única e indiscutível, a adesão divulgada depende do universo considerado, do método e do momento da contagem. Comparar dois números sem saber como foram obtidos pode significar comparar realidades diferentes.
Pelo exposto, é falsa a afirmação em análise de que “os sindicatos apresentam sempre números de adesão às greves superiores aos do Governo”.