Marítimo e Santa Clara: ser insular duas vezes
Há jogos que valem mais do que três pontos. O Marítimo–Santa Clara é um deles. Frente a frente estarão dois clubes que há muito mostram que a Madeira e os Açores têm um lugar próprio no desporto português.
A Primeira Liga é mais representativa do país quando conta com os dois arquipélagos. Portugal não acaba na costa continental. Tem no Atlântico uma parte essencial da sua história, cultura e dimensão territorial.
Marítimo e Santa Clara não se limitam a representar as ilhas. Já levaram o nome de Portugal às competições europeias. Os madeirenses já mediram forças com equipas como a Juventus e o Leeds, e os açorianos já enfrentaram equipas como o Teplice e o Partizan, entre tantas outras. São páginas de uma história que orgulha os dois arquipélagos e dignifica o futebol português.
Há episódios que também aproximam estas ilhas. Em 1997/98, foi na Madeira, diante do Câmara de Lobos, que o Santa Clara garantiu o título da II Divisão B e o acesso ao futebol profissional.
Ao longo das últimas décadas, vários jogadores tiveram igualmente o privilégio de representar os dois emblemas. É o caso do açoriano Paulo Henrique, olímpico por Portugal e hoje referência defensiva do Marítimo, depois de ter vestido a camisola do Santa Clara. Também o açoriano Mariano Raposo e os madeirenses Paiva e Zeca fizeram parte desta ligação entre estes dois clubes e estes dois arquipélagos.
Costuma dizer-se que ser da Madeira e do Marítimo é ser madeirense duas vezes. Talvez vestir as camisolas do Marítimo e do Santa Clara seja uma forma de ser insular duas vezes.
As centenas de jovens que têm acompanhado o Marítimo pelos estádios do continente mostram que a sua dimensão ultrapassa largamente a Madeira.
Este jogo será uma disputa por três pontos, mas merece ser também uma festa dos povos insulares, que tantas vezes fizeram muito com pouco e nunca deixaram que a distância limitasse a sua ambição.
O resultado importa. Mas aquilo que estes dois clubes representam para Portugal importa ainda mais.