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Quatrocentas pessoas juntam-se em Coimbra e exigem direito a "teto e um chão"

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Foto PAULO NOVAIS/LUSA

Mais de 400 pessoas juntaram-se hoje na Praça 8 de Maio, em Coimbra, junto à Câmara e ao Mosteiro de Santa Cruz, para reivindicarem soluções para a crise habitacional, numa ação solidária com as acampadas de Porto e Lisboa.

"Eu quero um teto, eu quero um chão, quero o direito à habitação", gritavam os manifestantes pelas 19:45, que também apelavam a medidas concretas e urgentes para a resolução de um problema que disseram persistir em todas as idades e classes sociais.

Na Baixa de Coimbra, promotores ou não da iniciativa empunhavam vários cartazes, onde se podiam ler frases como "Violência policial é o primeiro sinal", "Deixem o Luís especular" ou "Existo logo habito".

As acampadas de Lisboa e do Porto, que foram interrompidas por ações policiais, também mereceram referência na iniciativa solidária e pacífica, com vários dos presentes a questionarem a desproporcionalidade daquelas intervenções.

"Que força é essa? Que força é essa? Que trazes nos braços? Que só te serve para obedecer?", cantou um grupo de organizadores, música de Sérgio Godinho que levantou aplausos de outros apoiantes.

Rebeca Moore, da organização, explicou à agência Lusa que a falta de habitação ou os preços altos dos arrendamentos e de compra são transversais a toda a sociedade e disse ser urgente resolver o problema, sobretudo numa cidade de estudantes, a maioria deslocados.

"Este é um movimento de solidariedade. Muitos estudantes enfrentam grandes dificuldades e a questão da habitação coloca em causa também o direito à educação. Há estudantes que são obrigados a pagar 600 ou 700 euros por um quarto", disse.

Moore, que frequenta um curso de mestrado em Coimbra, recordou ainda a "ação musculada" no Porto, com a intervenção policial a eliminar a acampada e sublinhou que, naquela cidade, havia cartazes que referiam que estas atitudes "cheiram a outro tipo de regime".

À Câmara de Coimbra, Rebeca Moore pediu uma atenção especial às repúblicas de estudantes e mais habitação pública.

Maria José Carrilho, de 66 anos, marcou igualmente presença na manifestação e garantiu ali estar porque a "habitação é um direito natural, como a saúde ou a educação".

"Se o sistema capitalista acha que as pessoas não têm direito à habitação, então eu aqui estou. Este é um direito que deve ser defendido".

Palavras de ordem a propósito do 25 de Abril ou "Fascismo nunca mais!" foram também entoadas, assim como o "Grândola, Vila Morena", música de Zeca Afonso habitualmente usada neste tipo de ações solidárias e reivindicativas.

A organização da iniciativa disse ainda à Lusa desconhecer que novas medidas serão consideradas para os próximos dias, mas garantiu que o movimento será sempre pacífico e solidário.

"Abaixo a especulação e abaixo a lei das rendas, que vai cair, que vai cair" foram outras mensagens deixadas na Praça 8 de Maio.

O manifesto lido pela organização já após as 20:00 apontava para o aumento das rendas e exigia a reversão da lei do arrendamento. Pedia ainda o fim do despejo de pessoas, recordava o turismo desenfreado e intimava ao aumento da habitação pública. Os manifestantes pediram ainda a recuperação de imóveis devolutos para arrendamento.

Os atuais protestos pelo direito à habitação e o custo de vida em Portugal tiveram início na cidade do Porto, no dia 10, com cerca de 1.500 manifestantes a juntarem-se na Praça D. João I e a pernoitarem no local em tendas de campismo.

Nesse dia, a plataforma cívica "Não dá mais para viver assim" promoveu protestos também em Aveiro, Braga e Lisboa, reivindicando o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário, energético e da distribuição e medidas que respondam à crise na habitação.

No dia 15, o movimento que protestava no Porto, já no formato de uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e num polícia, e à noite cerca de três mil pessoas juntaram-se aos manifestantes iniciais, mas acabaram por dispersar.

Hoje de madrugada, enquanto o protesto da cidade nortenha foi terminado perante os avisos de intervenção policial, as autoridades removeram dezenas de tendas na capital e detiveram 55 pessoas por desobediência, entretanto libertadas que serão ouvidas na quarta-feira por um juiz.