DGC sugere que coimas podem ser "indutoras de maior cuidado" no comércio digital
O diretor-geral do Consumidor apontou hoje que a aplicação de coimas às empresas de comércio digital pode ser "indutora de maior cuidado", mas admitiu dificuldades com as competências territoriais e defendeu um reforço da informação aos consumidores.
"A questão das coimas é algo que merece uma reflexão, porque nós não tínhamos de resolver todos os problemas com a aplicação de uma multa quando alguma coisa não corre bem, mas eu acho que isso pode ser indutor de maior cuidado, nomeadamente de quem faz comércio eletrónico", disse Jorge Seguro Sanches aos deputados da Comissão de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação.
Numa audição no parlamento, Jorge Seguro Sanches sublinhou que o comércio eletrónico é hoje um dos principais canais de acesso dos consumidores a bens e serviços e que a eliminação das discriminações relacionadas com a nacionalidade, residência ou localização geográfica é "um objetivo central do mercado interno digital da União Europeia".
Nesse sentido, defendeu que deve haver um reforço do trabalho das instituições públicas em dar mais informação aos consumidores.
"Acho que é um dos objetivos da Direção-Geral, com os recursos que tem, criar mais capacitação, mais empoderamento dos consumidores", disse, destacando os direitos dos consumidores das regiões autónomas de Açores e Madeira.
"Devemos trabalhar mais todos na informação, dar mais informação aos nossos consumidores, capacitá-los, prepará-los melhor, nomeadamente para fazer valer os seus direitos nesta questão", disse.
A audição debruçou-se sobre a recusa de entrega de encomendas, a aplicação de custos de envio desproporcionados ou a limitação do acesso a condições comerciais equivalentes às do território continental nestas regiões.
O responsável recordou o regulamento europeu de 2018 que proibiu o bloqueio geográfico injustificado e outras formas de bloqueio com base na nacionalidade ou local de residência dos consumidores ('geoblocking'), mas admitiu que "acaba por produzir um efeito semelhante, e também muito mau, que é o 'geopricing'".
"Através do preço, consegue delimitar-se e não se consegue chegar aos consumidores, e o objetivo que nós temos na União Europeia é conseguir que os consumidores, estejam eles onde estiverem, acedam aos mesmos bens, nas melhores condições [e] mais iguais possíveis", acrescentou Seguro Sanches.
De acordo com o responsável, esta questão não abrange apenas Portugal, exigindo, portanto, medidas a nível europeu.
Seguro Sanches, a Direção-Geral do Consumidor (DGC) "não dispõe de competências inspetivas ou sancionatórias" nestes processos, cabendo a fiscalização à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e às entidades regionais competentes.
Na terça-feira, também no parlamento, a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) disse ter recebido quase 800 reclamações sobre os serviços postais nos Açores.
Do lado da DGC, o seu diretor-geral apontou a quatro reclamações "relacionadas com alegadas situações de bloqueio geográfico ou discriminação territorial" nos últimos três anos.
Segundo Seguro Sanches, estão em causa reclamações de consumidores residentes no Açores ou na Madeira que envolvem recusa de entrega ou cancelamento de encomendas em processo de aquisição de bens através de comércio eletrónico.
O diretor-geral da DGC registou que o número reduzido se deve, principalmente, por a Anacom ser o regulador que acompanha esta questão, mas que tal "não significa que esta preocupação não tenha de existir".