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Ser luso-venezuelano

Nascer e crescer na Venezuela, sendo filha de emigrantes madeirenses, é uma realidade comum a muitos de nós. É crescer entre duas culturas, dois idiomas, duas formas de estar no mundo. É aprender, desde cedo, a navegar entre a saudade e as memórias, até aquelas que não vivemos diretamente, mas que, de tanto as ouvirmos contar, acabam também por se tornar nossas.

É ouvir as histórias dos avós e dos nossos pais nas tardes de domingo, quando toda a família se reunia à volta da mesa. É construir, a milhares de quilómetros de distância, uma imagem da Madeira feita de relatos, fotografias, sabores e afetos. Uma ilha por vezes imaginada e idealizada, mas que aprendemos a sentir como nossa muito antes de a conhecermos verdadeiramente.

É também crescer na Venezuela e fazê-la nossa: as arepas, as “hallacas” no Natal, o calor, a música, a espontaneidade, os amigos, as expressões que não precisam de tradução. Aprender a amar duas terras por igual é um privilégio. Um privilégio que, talvez, só compreendamos verdadeiramente quando somos adultos.

Mas viver entre dois mundos também tem as suas contradições. Muitas vezes, falta-nos um sentimento claro de pertença. Não somos completamente daqui, nem completamente de lá. Na Venezuela, somos os “portus”. Na Madeira, somos os “miras”. E, pelo meio, vamos tentando construir uma identidade que não cabe inteiramente numa única nacionalidade.

Durante muito tempo, explicar de onde somos pode transformar-se numa pequena história: nasci na Venezuela, os meus pais são madeirenses, cresci entre Portugal e a Venezuela… Como se uma resposta simples nunca fosse suficiente.

Talvez por isso goste do termo luso-venezuelano. Porque transmite a essência daquilo que somos: identidades híbridas, feitas de várias geografias, referências e afetos. Pessoas que aprenderam a viver entre culturas e que, apesar dos desafios da integração e das dúvidas sobre a pertença, podem reconhecer que carregar duas identidades não é uma ausência.

Ser luso-venezuelano é perceber que não temos necessariamente de escolher um lado. É perceber que a nossa história familiar começou muito antes de nós e que somos, de certa forma, a continuação das viagens, dos sacrifícios e das esperanças daqueles que partiram. E talvez sejamos, de alguma maneira, eternos emigrantes: pessoas que aprenderam que “casa” não tem obrigatoriamente uma única morada.

Durante anos, pensei que pertencer a dois lugares significava não pertencer inteiramente a nenhum.

Hoje vejo-o de outra forma. Não somos metade portugueses e metade venezuelanos. Somos inteiramente as duas coisas. E é precisamente nesse espaço entre a Madeira e a Venezuela, entre aquilo que herdámos e aquilo que vivemos, que construímos uma identidade que é só nossa.