DNOTICIAS.PT
Fact Check Madeira

Será que Hitler organizou viagens de cruzeiro à Madeira para operários alemães?

Chegada ao Funchal de um grupo de turistas da 'Kraft durch Freude'. Ao largo, o navio onde viajava Robert Ley. Foto cedida
por Elisabeth Gesche, ex-cônsul da Alemanha na Madeira e inserida na tese de mestrado de Helena Perneta. FOTO FIGUEIRAS
Chegada ao Funchal de um grupo de turistas da 'Kraft durch Freude'. Ao largo, o navio onde viajava Robert Ley. Foto cedida por Elisabeth Gesche, ex-cônsul da Alemanha na Madeira e inserida na tese de mestrado de Helena Perneta. FOTO FIGUEIRAS

Ontem, no programa ‘Prova Oral’ da RTP Antena 3, apresentado por Fernando Alvim, a historiadora Irene Flunser Pimentel afirmou que “uma das coisas que Hitler fez foi instaurar um chamado estado social” para cativar as bases da sociedade alemã e que, “pela primeira vez, operários foram fazer cruzeiros, por exemplo, à Madeira”. A especialista em história europeia e portuguesa do século XX acrescentou que essas viagens eram promovidas por uma organização de tempos livres, que se chamava ‘Força pela Alegria’. Também sublinhou que, ao contrário do estado social do pós-II Guerra Mundial, o “estado social” do regime nazi “não era universal”, pois deixava “de fora os judeus, os comunistas, os socialistas e por aí fora”.

Será que a Madeira esteve mesmo na rota de viagens de propaganda nazi?

“Força pela Alegria” é a tradução para português de ‘Kraft durch Freude’ (KdF), uma organização de lazer fundada pelo regime nazi em 1933, integrada na Deutschen Arbeitsfront (DAF), ou ‘Frente Alemã do Trabalho’, dirigida por Robert Ley. Segundo o Museu Histórico Alemão, tornou-se na organização mais popular do regime. Com a supressão dos sindicatos, a KdF permitia controlar e doutrinar os trabalhadores, tanto no emprego como nos tempos livres, promovendo um extenso programa de iniciativas de lazer cultural e turístico. Uma das iniciativas mais apreciadas era o seu programa de viagens. A KdF vendeu 43 milhões de viagens até 1939, a maioria passeios de um dia. “Dos sete milhões de viagens de férias, 690.000 eram viagens marítimas para a Noruega, Madeira ou Itália”, indica o Museu Histórico Alemão. “Os preços variavam de um a cinco marcos para viagens curtas e 120 marcos para um cruzeiro para a Madeira, o que era algo praticamente inacessível para um trabalhador que tinha um salário mensal de cerca de 150 marcos”, acrescenta a mesma fonte.

As várias viagens organizadas pela KdF à Madeira realizaram-se entre Março de 1935 e Março de 1939. A 14 de Março de 1935, o DIÁRIO noticiava a visita à Madeira dos primeiros três navios da KdF. ‘St. Louis’, ‘Oceana’ e ‘Der Deutsche’ chegariam na manhã do dia 20 de Março e partiriam no dia 21 à noite, com “2.600 passageiros de ambos os sexos, de todas as partes da Alemanha, quase todos operários e trabalhadores, que vêm em viagem de recreio”. “Estes operários pagam pela sua viagem uma importância mínima, que lhes permite efectuá-la, pois de outro modo isso não lhes seria possível”, lê-se na mesma notícia. Os passageiros fariam uma viagem de comboio até ao Terreiro da Luta e voltariam dali nos tradicionais carros de cesto. Participariam igualmente em excursões ao Pico do Areeiro, Ribeira Brava, Câmara de Lobos e vários outros locais na ilha. O próprio director da Deutschen Arbeitsfront (DAF), Robert Ley, veio nessa primeira viagem, tendo sido recebido pelo governador civil da Madeira. Numa recepção que deu às autoridades locais a bordo do ‘St. Louis’, Robert Ley, “usando da palavra com grande entusiasmo”, explicou o significado desta viagem à Madeira, constituindo “um grande sucesso das ideias da nova Alemanha, preconizadas pelo führer Adolfo Hitler”.

Os cruzeiros à Madeira, com escala em Lisboa, tornaram-se muito populares entre os operários alemães. A frota de barcos da KdF expandiu-se e modernizou-se. A 19 de Outubro de 1938, o DIÁRIO relatava que na véspera tinham chegado ao Funchal os navios ‘Wilhelm Gustloff’ e ‘Stuttgart’ e que “ao ancorarem no porto as bandas de bordo tocaram os hinos nacionais alemão e português, acompanhadas em côro pelos excursionistas, que, reforçados pelos altos-falantes, conseguiram ser nitidamente ouvidos em terra”. Nessa ocasião, “subiram ao ar alguns foguetes que, ao rebentarem, deixaram cair pequenas bandeiras portuguesas e alemãs”. Pouco depois, as excursões partiram em direcção ao Terreiro da Luta e ao Santo da Serra.

As viagens da KdF constituíram tema de diversos trabalhos académicos na Universidade da Madeira (UMa). ‘Força pela Alegria – O mito da Ilha da Madeira na versão nacional-socialista’ foi o título da conferência que a Professora Martina Emonts apresentou no Colóquio sobre Literatura de Viagem, realizado na UMa, em Julho de 1995. A investigadora baseou o seu trabalho em quatro relatos de viagens, que fazem a apologia do nazismo e realçam várias afinidades entre os regimes liderados por Hitler e Salazar. “Uma constante nas viagens à Madeira é o tocar dos hinos nacionais. Ao hino português é feita uma reverência à maneira nazi, com o braço elevado”, observa Martina Emonts.

Em Setembro de 2011, a mesma docente universitária foi orientadora, juntamente com Paulo Miguel Rodrigues, da dissertação de mestrado de Helena Perneta intitulada ‘A Madeira e os Alemães, 1917-1939. O discurso na imprensa madeirense’, que dedica um capítulo ao “«Turismo Nazi» na Madeira: os Cruzeiros da Kraft durch Freude, 1935-1939”.

Os cruzeiros do regime nazi à Madeira cessariam em 1939, pouco antes do eclodir da II Guerra Mundial e com a mobilização da força de trabalho e da frota naval para os objectivos bélicos. A existência destas viagens e a sua ligação à propaganda nazi está profusamente documentada em artigos de imprensa da época e em estudos académicos posteriores. Apesar de ser um capítulo da história pouco conhecido, conclui-se ser verdadeira a ideia ontem transmitida pela historiadora Irene Flunser Pimentel.

“Uma das coisas que Hitler fez foi instaurar um chamado estado social. Pela primeira vez, operários foram fazer cruzeiros, por exemplo, à Madeira. Isto era feito através de uma organização de tempos livres, que se chamava Força pela Alegria. Isto muitas vezes é confundido com o estado social do pós-II Guerra Mundial, mas, atenção, que não era universal. Estavam de fora os judeus, os comunistas, os socialistas e por aí fora” - Irene Flunser Pimentel, historiadora, no programa ‘Prova Oral’, da Antena 3.