ONU pede aos EUA reparações para os habitantes das Ilhas Marshall
O Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos pediu hoje aos Estados Unidos que garantam reparações aos habitantes das Ilhas Marshall afetados pelos testes nucleares norte-americanos no arquipélago.
Uma nação minúscula com cerca de 37 mil habitantes no Pacífico Ocidental, as Ilhas Marshall foram palco de 67 testes nucleares norte-americanos entre 1946 e 1958, cujos impactos ambientais e sanitários ainda se fazem sentir.
"Para os habitantes das Ilhas Marshall, esta história não pertence ao passado", declarou Awa Dabo, Alta-Comissária Adjunta das Nações Unidas para os Direitos Humanos, perante o Conselho dos Direitos Humanos da ONU.
"Perdura nos corpos e nas famílias, nas terras contaminadas e nas comunidades deslocadas. E perdura nas reivindicações de várias gerações por reconhecimento e justiça", acrescentou Dabo.
Entre os legados mais duradouros destes testes está a bomba "Cactus", que explodiu em 1958 na ilha de Runit e cujas consequências continuam a pesar sobre as Ilhas Marshall.
Duas décadas após esta explosão, o Exército norte-americano despejou na cratera os resíduos contaminados de dezenas de outros testes. O local foi coberto, em 1979, por betão. Por questões de custo, o fundo da cratera não foi isolado com uma camada de betão, gerando receios quanto à disseminação de materiais radioativos.
Após várias décadas de exposição aos elementos surgiram também fissuras na área. Além disso, a estrutura está ameaçada pela subida do nível do mar provocada pelo aquecimento global.
Muitos habitantes foram retirados à força de terras que ocupavam há gerações e milhares de outros foram afetados pela precipitação radioativa.
Num relatório apresentado ao Conselho, o Alto Comissariado pede aos Estados Unidos que "reconheçam que ainda não houve uma resolução completa e justa das reivindicações relacionadas com o programa de testes nucleares".
O organismo solicita ao Governo norte-americano que "ofereça reparações completas e eficazes a todos os habitantes das Ilhas Marshall pelas consequências do legado nuclear para os direitos humanos e, em particular, que desclassifique e torne acessíveis todas as informações" relacionadas com o assunto.
Após a retirada das forças armadas norte-americanas, o governo das Ilhas Marshall aceitou oficialmente um pagamento integral e definitivo --- no valor de 150 milhões de dólares (133 milhões de euros) --- destinado a cobrir o impacto dos testes nucleares.
No entanto, a resolução dos pedidos de indemnização "não cobria os prejuízos sofridos pelas gerações futuras, os danos morais e ambientais, nem outras formas de prejuízo", sublinhou Abo.
Os habitantes das Ilhas Marshall consideram que as reparações recebidas até à data continuam a ser insuficientes.
Criado em 1987 pelo arquipélago, o Tribunal de Reivindicações Relativas aos Ensaios Nucleares proferiu, ao longo das décadas seguintes, várias decisões fixando em mais de 2,3 mil milhões de dólares (2 mil milhões de euros) o montante das indemnizações a pagar.