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Assembleia Legislativa Madeira

"Para falar da Venezuela é preciso ter estado lá", diz Paulo Cafôfo

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"Na Venezuela, aconteceu finalmente aquilo que há demasiado tempo era desejado: a saída de Nicolás Maduro da presidência", começou por afirmar Paulo Cafôfo, numa intervenção em que abordou a situação daquela país onde residem centenas de milhares de portugueses e lusodescendentes.

"O PS está ao lado dos nossos conterrâneos que naquele país construíram vidas e realizaram sonhos. Partilhamos a emoção e alívio que sentiram ao ver Maduro capturado, mas também sentimos as suas angústias, os seus receios e expectativas com o futuro", garante.

O deputado, que foi secretário de Estado das Comunidades, não concorda com muitas das análises que têm sido feitas sobre a Venezuela.

"Há uma realidade que muitos comentadores, mas também responsáveis políticos, sentados a milhares de quilómetros, continuam a não compreender. Antes de opinar, é preciso entender um povo massacrado e oprimido, que ainda assim continua a acreditar que outro futuro é possível. Por isso, para falar da Venezuela, é preciso conhecer a Venezuela e a nossa gente que escolheu aquele país para viver. É preciso ter estado lá", afirma.

Quem nunca viveu a realidade da Venezuela "dificilmente entende porque, para um povo esmagado durante décadas, a esperança de liberdade pesa mais do que qualquer discussão sobre geopolítica, direito internacional e ilegalidades cometidas pelos Estados Unidos".

Nada disso deve ser ignorado ou branqueado mas deixa uma pergunta: "e os direitos dos venezuelanos, esquecidos e espezinhados durante quase 27 anos?"

"Para quem sofreu e continua a sofrer na pele a repressão, para quem vive com medo todos os dias, para os mil presos políticos, para os oito milhões que tiveram que fugir da Venezuela, para a muita da população que passa fome, estar a debater se foi legal a operação para deter Maduro, não é claramente a preocupação".

"E agora, Venezuela", pergunta.

"O que desejamos, é que não haja uma transição concertada com os Estados Unidos, para mudar a cabeça, manter o regime, reorganizar o sistema, redistribuir poder e extrair recursos, mantendo o povo marginalizado". 

Paulo Cafôfo diz que é "preciso estar vigilante para garantir que a história não se repete com outras caras ou que não são os venezuelanos a decidir o destino do seu país.  Aos venezuelanos pertence aquilo que é da Venezuela. E quem tem de mandar na Venezuela são os venezuelanos".

Se aos venezuelanos cabe decidir o seu futuro, sublinha, "isso obviamente, inclui também os muitos madeirenses e luso-venezuelanos que vivem, trabalham e amam aquele país, que ali criaram famílias, empresas e comunidades, e para quem a Venezuela não é um lugar distante, mas uma pátria vivida todos os dias".

Cafôfo não tem dúvidas que não pode haver transição democrática, "enquanto houver presos políticos nas cadeias. A sua libertação é urgente, é inadiável, é um imperativo de justiça, deve ser uma exigência, que ainda não ouvi por parte dos Estados Unidos".

É nesta fase, que Portugal, 2pela dimensão e importância da sua comunidade na Venezuela, mas também pelas relações que tem com os Estados Unidos, deve assumir um papel de liderança num processo de transição democrática, atuando como mediador credível, defensor dos direitos humanos e da soberania do país, com um envolvimento direto e ativo do Governo da República".

E ainda mais importante, "é que o Governo da República possa garantir a segurança dos nossos compatriotas, no caso de agravamento da situação na Venezuela; que confirme que o plano de contingência está atualizado, em necessidade de evacuação; que assegure apoio social e humanitário, bem como a proteção consular; e reforce a estrutura diplomática".

Do mesmo modo, diz, é fundamental que "o Governo Regional garanta acompanhamento e apoio aos madeirenses que continuam a construir na Venezuela a sua vida, mas também que preveja formas de inclusão daqueles que eventualmente desejem regressar à nossa Madeira".