Realizador João Canijo morre aos 68 anos
Presidente da República lamenta morte de uma “voz forte e singular”; Governo destaca figura maior do cinema português contemporâneo
O realizador português João Canijo morreu na quinta-feira, aos 68 anos, disse à agência Lusa fonte da produtora Midas Filmes. O cineasta morreu perto de Vila Viçosa, no distrito de Évora, onde repartia habitualmente residência com Lisboa, não tendo sido adiantada a causa de morte.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou a “morte precoce” de João Canijo, que classificou como “uma voz forte e singular” e um “destemido cronista” da realidade do país.
“À família de João Canijo, e à família alargada, os seus atores, apresento sentidas condolências, prestando homenagem ao meticuloso e destemido cronista de um país que nem sempre queremos ver”, refere uma nota divulgada na página da Presidência da República.
O chefe de Estado salientou que João Canijo “tinha tido recentemente o seu momento de consagração” com o díptico Mal Viver e Viver Mal, considerando que a sua “morte precoce” privará o país de “uma voz forte e singular no momento da sua maior afirmação, incluindo a projeção internacional”.
“Há décadas que o cineasta vinha filmando o lado B de Portugal, a miséria, a emigração, a violência e o ‘mau-gosto’, num registo entre o melodrama, o documentário e o teatral, projeto que passava por um longo trabalho coletivo com os atores”, lê-se ainda na mesma nota.
Também o Governo lamentou a morte do realizador. Em comunicado, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, expressou “com profundo pesar” a morte de João Canijo, descrito como “figura maior do cinema português contemporâneo”.
Segundo o Governo, João Canijo foi uma “figura maior do cinema português contemporâneo, com uma obra que tem tanto rigor formal como intensidade emocional”, destacando-se ainda por ser “especialmente sensível a captar dinâmicas familiares e personagens femininas”.
“A morte inesperada de João Canijo representa uma perda irreparável para a cultura portuguesa. A sua obra — intensa, realista, exigente e profundamente humanista — deixa um legado que nos merece todo o respeito e admiração”, lê-se no comunicado.
João Canijo, que completou 68 anos em dezembro passado, estava a finalizar o mais recente projeto de cinema, o filme Encenação, assim como a filmagem, há cerca de duas semanas, de uma peça de teatro com ele relacionada.
João Manuel Altavilla Canijo nasceu em 1957 no Porto, onde frequentou o curso de História na Faculdade de Letras entre 1978 e 1980, tendo descoberto a paixão pelo cinema logo de seguida. No meio cinematográfico iniciou-se como assistente de realização de Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Alain Tanner e Werner Schroeter, entre outros, como recordavam os autores de uma entrevista feita para o projeto Novas & velhas tendências no cinema português contemporâneo da Escola Superior de Teatro e Cinema, publicada em 2011.
Assinou em 1988 a primeira longa-metragem, Três Menos Eu, seguindo-se a série televisiva Alentejo Sem Lei. Desde então, trabalhou ainda em direcção de produção em cinema, encenou para teatro e realizou uma filmografia marcada por temas da sociedade portuguesa dos últimos 40 anos, observados a partir do interior de contextos familiares e com personagens femininas marcantes.
Entre os seus filmes contam-se Sapatos Pretos (1998), Ganhar a Vida (2001), Mal Nascida (2007), Sangue do Meu Sangue (2011) e o díptico Mal Viver e Viver Mal (2023).
Mal Viver valeu-lhe o Urso de Prata, prémio do júri do Festival de Cinema de Berlim, em 2023, ano em que recebeu também um prémio de carreira no festival de cinema Cineuropa, em Santiago de Compostela, Espanha. Foi ainda o candidato de Portugal ao Óscar de Melhor Filme Internacional.
No último projecto, Encenação, João Canijo voltou a trabalhar com um elenco de atrizes presentes em muitos dos seus filmes anteriores, nomeadamente Rita Blanco, Anabela Moreira, Beatriz Batarda e Cleia Almeida, às quais se juntou Miguel Guilherme.