A Madeira disse: Já chega
Os resultados eleitorais na Madeira não deixam grande margem para dúvidas: há um cansaço evidente com o “sempre igual”. O Chega foi o grande vencedor não apenas em votos, mas sobretudo em sinal político. Goste-se ou não do partido, o que aconteceu foi um recado claro do eleitorado.
Durante décadas, a Madeira habituou-se a um poder quase hereditário. Mudavam os rostos, mas o sistema mantinha-se. Clientelismo, promessas recicladas, um discurso paternalista que tratava os madeirenses como eternos dependentes do favor político. Isto funcionou enquanto houve dinheiro, obras e alguma sensação de estabilidade. Quando isso falha, a paciência acaba.
O voto no Chega não deve ser lido apenas como adesão ideológica. É, acima de tudo, um voto de protesto. Um “basta”. Basta de arrogância política, basta de elites fechadas sobre si próprias, basta da ideia de que o povo deve agradecer o pouco que lhe dão. Quando as pessoas sentem que não são ouvidas, votam em quem fala alto, mesmo que fale de mais.
Há quem se apresse a demonizar os eleitores. Erro clássico. O voto não nasce no vazio. Nasce da perceção de injustiça, da falta de respostas, da sensação de abandono. E a Madeira, apesar da imagem turística, tem problemas bem reais: custo de vida, salários baixos, jovens a sair, serviços públicos cansados.
A História ensina-nos isto vezes sem conta: quando os partidos tradicionais deixam de representar, surgem forças alternativas. Não é bonito, não é confortável, mas é democrático. Ignorar o sinal ou tratá-lo com sobranceria só garante que ele se repete, com mais força.
A Madeira quer mudança. Disse-o nas urnas. Agora resta saber se quem perdeu percebeu a mensagem… ou se vai continuar a fingir que foi apenas um “acidente eleitoral”.
Quando o povo fala, raramente é acidente.
António Rosa Santos