Educação escreve-se no presente…

Há datas que passam como quem folheia um calendário apressado. Outras, porém, exigem que paremos um instante, que respiremos fundo e que olhemos para o que realmente significam. O “Dia Internacional da Educação”, celebrado no próximo dia 24 de janeiro, pertence a este segundo grupo. Não porque precise de mais discursos, desses estamos bem servidos, mas porque nos obriga a confrontar uma contradição crescente: falamos incessantemente sobre o futuro, mas continuamos a ignorar aqueles que o vão habitar.

Para 2026, as Nações Unidas escolheram um tema que soa quase a manifesto: “O poder da juventude na construção conjunta da educação”. A formulação é inspiradora, mas também desconfortável, porque, se formos honestos, a pergunta impõe-se: estamos realmente a ouvir os jovens ou apenas a falar sobre eles, como quem descreve um território que nunca visitou?

Durante demasiado tempo, a educação foi desenhada de cima para baixo, em gabinetes silenciosos, entre relatórios, normativos e boas intenções. Os estudantes eram tratados como recipientes a encher, não como participantes de pleno direito. E, no entanto, são eles que hoje enfrentam um mundo que muda à velocidade de um clique, onde a instabilidade é regra e a desigualdade insiste em não desaparecer. A escola, tantas vezes, continua a responder-lhes com ferramentas do século passado.

A juventude não exige milagres. Exige sentido. Quer participar, questionar, construir. Quer que a educação deixe de ser apenas um percurso obrigatório e se torne um espaço vivo, onde se aprende a pensar e a imaginar. Ignorar essa vontade é comprometer não só o direito à educação, mas a própria relevância da escola enquanto instituição social.

Se acreditamos que a educação é um pilar da democracia, e repetimos isso com frequência, então não podemos continuar a edificá-la sem aqueles que a habitam todos os dias. A revolução tecnológica obriga-nos a repensar métodos, sim, mas obriga-nos sobretudo a repensar relações: quem ensina, quem aprende, quem decide. A escola não pode ser um museu de práticas antigas num mundo que já não cabe nas molduras do costume.

Talvez este “Dia Internacional da Educação” sirva, pelo menos, para recordar o óbvio: o futuro não se prepara à margem da juventude. Prepara-se com ela. E começa agora, nas salas de aula onde se experimenta, nos corredores onde se conversa, e na coragem, sempre rara, de escutar verdadeiramente.

José Augusto de Sousa Martins