Cafôfo critica mudança de embaixador
O ex-Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Paulo Cafôfo, defende que Portugal deveria assumir uma postura muito mais activa e interventiva na defesa da comunidade portuguesa na Venezuela e na exigência da libertação dos presos políticos, considerando ainda “pouco sensata” a substituição do embaixador português em Caracas num dos momentos mais conturbados da história recente do país.
No dia em que soube que a exoneração do actual embaixador, Cafôfo considera que a mobilidade de embaixadores é uma prática normal e faz parte da carreira diplomática, mas o problema reside no momento escolhido para a mudança. “Não está aqui em causa a competência das pessoas. Conheço o embaixador João Pedro Fins do Lago, conheço também o embaixador Frederico Silva. O que está em causa é o contexto”, afirma.
Segundo o antigo governante socialista, a Venezuela atravessa um período de profunda instabilidade política e social, marcado pela incerteza, por detenções arbitrárias e pela expectativa de libertação de presos políticos. “Num momento destes, estar a acrescentar mais incerteza com a chegada de um novo embaixador que não conhece a comunidade portuguesa, não conhece o país nem os interlocutores do regime, é, no mínimo, inconcebível”, sustenta.
Sublinha o conhecimento profundo que o embaixador cessante detinha sobre a realidade venezuelana e sobre a comunidade portuguesa, maioritariamente de origem madeirense. “Esse capital diplomático perde-se. As relações constroem-se com o tempo e, em diplomacia, a continuidade é um valor essencial, sobretudo em contextos de crise”, afirma, defendendo que a missão poderia ter sido prolongada ou, em alternativa, assegurada uma transição interina até que a situação no país estabilizasse.
Para além da questão diplomática, Cafôfo aponta uma crítica mais ampla à postura do Governo português face à Venezuela. “Gostava de ver um Governo que não andasse com paninhos quentes, mas que fosse verdadeiramente interventivo, capaz de exercer pressão política e diplomática”, afirma.
O ex-Secretário de Estado lembra o peso determinante da comunidade portuguesa na economia venezuelana. “Se os portugueses saíssem da Venezuela de um dia para o outro, o país parava. Mais de 80% da panificação e grande parte da distribuição alimentar estão nas mãos de madeirenses. Somos uma comunidade profundamente integrada e estrutural para o funcionamento do país”, sublinha.
Na sua opinião, esse peso histórico e económico deveria ser usado de forma mais assertiva. “Portugal tem legitimidade para exigir mais ao Governo venezuelano, seja na defesa directa da sua comunidade, seja na libertação dos presos políticos. Uma coisa não se separa da outra”, defende.
Paulo Cafôfo considera que a defesa dos portugueses passa inevitavelmente pela defesa dos direitos humanos e do Estado de direito. “Não podemos fechar os olhos às detenções arbitrárias. Há cidadãos portugueses e luso-descendentes em situações absolutamente inaceitáveis, sem acusação, sem processo e sem garantias legais”, alerta.
Outro ponto considerado essencial é a necessidade de tranquilizar a comunidade portuguesa quanto à sua segurança. Cafôfo defende que o Governo deveria garantir publicamente que o plano de contingência para a Venezuela está actualizado. “Ninguém pede detalhes confidenciais. Mas saber que existe um plano preparado, que o Estado português está pronto para agir em caso de agravamento da situação, seria profundamente tranquilizador”, afirma.
Recorda que a Venezuela figura entre os países de maior risco nos planos de contingência do Estado português. “Isso mostra que o próprio Estado reconhece a gravidade da situação. Esperamos sempre o melhor, mas temos de estar preparados para o pior”, sublinha.
Para Paulo Cafôfo, a mensagem à comunidade portuguesa deve ser clara: “Portugal não pode ser apenas um observador preocupado. Tem de ser um actor presente, firme e solidário. A comunidade portuguesa na Venezuela precisa de sentir que não está sozinha”.