A comunicação social da Madeira só valoriza iniciativas com estrangeiros?
A afirmação foi feita num comentário às reações geradas por uma notícia do DIÁRIO sobre uma ação de limpeza da Praia Formosa que envolveu voluntários de várias nacionalidades. Ao afirmar que “quando era só os de cá a limpar nem era notícia”, o leitor do DIÁRIO sugere que a comunicação social regional apenas dá visibilidade a este tipo de iniciativas quando participam estrangeiros, ignorando acções semelhantes realizadas por cidadãos madeirenses.
Para verificar esta ideia, foi analisado um conjunto alargado de notícias publicadas ao longo de vários anos — pelo menos desde 2016 — na imprensa regional madeirense, nomeadamente no DIÁRIO, mas também no Jornal da Madeira, RTP-Madeira e outros órgãos locais, relativas a iniciativas de limpeza de espaços públicos como praias, zonas costeiras, veredas, ribeiras e caminhos, promovidas por voluntários locais, associações regionais, juntas de freguesia ou grupos informais de cidadãos residentes.
Vejamos o que a análise demonstra.
Desde pelo menos 2016 existem múltiplas notícias que dão conta de limpezas realizadas exclusivamente por voluntários locais. Em Julho desse ano, por exemplo, a limpeza da praia da Ribeira Brava, envolvendo associações madeirenses e cerca de duas dezenas de voluntários, foi noticiada pela RTP Madeira, com destaque próprio. No mesmo ano, em março, o Funchal Notícias publicou uma peça sobre a limpeza e recuperação de uma vereda na Ribeira de Machico, levada a cabo por voluntários da freguesia, com apoio da junta local.
Em Janeiro de 2017, voltou a ser notícia a limpeza de um caminho rural na Ribeira de Machico, realizada por moradores e voluntários locais, num exemplo claro de iniciativa cívica sem qualquer participação estrangeira que mereceu cobertura jornalística. Já em Janeiro de 2021, o DIÁRIO noticiou uma acção de limpeza da Praia Formosa protagonizada por 11 voluntários, maioritariamente residentes, descrevendo o tipo de resíduos recolhidos e o enquadramento da iniciativa.
Ao longo dos anos seguintes, continuam a surgir notícias semelhantes, muitas vezes associadas a campanhas ambientais, associações locais, escuteiros, escolas ou juntas de freguesia. Em vários casos, o mesmo evento dá origem a mais do que uma notícia — seja em órgãos diferentes, seja em momentos distintos (anúncio da ação, balanço posterior ou enquadramento em campanhas mais amplas) — o que reforça a ideia de que estas iniciativas não só são noticiadas, como por vezes recebem cobertura repetida.
É verdade que, em algumas notícias mais recentes, a referência à participação de várias nacionalidades surge em destaque no título. Esse enquadramento corresponde a um critério editorial de noticiabilidade — o carácter simbólico ou invulgar da diversidade dos participantes — e não à inexistência prévia de cobertura mediática de acções semelhantes realizadas por madeirenses. A mudança está no ângulo escolhido, não na prática jornalística de noticiar estas iniciativas.
A leitura dos comentários associados à notícia revela, contudo, outro dado relevante. A maioria das reacções centra-se na responsabilização de terceiros — câmaras municipais, juntas de freguesia, Governo Regional, serviços públicos, funcionários do Estado ou beneficiários de apoios sociais — e rapidamente deriva para ataques pessoais, desvalorização da iniciativa ou instrumentalização política. Apesar da intensidade do debate, quase ninguém menciona a responsabilidade individual de não sujar, a prevenção do problema na origem ou a necessidade de mudança de comportamentos quotidianos. O foco está essencialmente em quem deve limpar, e não em como evitar que seja preciso limpar, o que evidencia uma lacuna recorrente no debate público em torno destas ações.
Perante o exposto, a afirmação “Quando era só os de cá a limpar nem era notícia” é avaliada como falsa. Há registos consistentes, ao longo de vários anos, de notícias sobre acções de limpeza de espaços públicos realizadas por voluntários locais na Madeira, incluindo praias e veredas, algumas das quais com mais do que uma peça jornalística sobre o mesmo evento. O que varia é o enquadramento editorial, não a existência de cobertura mediática.