Crónicas

“Ich bin ein beton”

1. Disco: mas que grande trabalho é este “Heavy Heavy”, o quarto trabalho dos escoceses Young Fathers. Uma fabulosa mistura de sonoridades que vão do soul, à pop, ao rock, hip-hop e noise. Há músicas que soam como que orações: “fill these boots to feel my soul and say, ‘Buy more drugs to feel that love again’, Kill them slow, they reap I sow, amen” (qualquer coisa como: “encha as botas para sentir a minha alma e diga: ‘Compre mais drogas para sentir esse amor de novo, Mate-os devagar, eles colhem, eu semeio, amém”.

2. Livro: “Anatomia de um Instante”, de Javier Cercas, é imprescindível para quem gosta de história contemporânea. As pessoas da minha idade lembram-se certamente do golpe de 23 de Fevereiro em Espanha, quando um daqueles militares espanhóis com chapéu de penico com encosto, desatou aos tiros no Parlamento. Para quem desconhece este momento marcante do retorno à democracia do país ali ao lado, tem aqui um excelente livro para ficar a saber sobre este assunto. Muito bem escrito, em ritmo brutal, a merecer leitura atenta.

3. É o betão, estúpido.

Não tem muito tempo, destruíram-se as muralhas construídas, há centenas de anos, por Oudinot, em nome de uma bizarra betonização das ribeiras do Funchal. Tudo em defesa dos funchalenses. Não nos foi dado um único estudo que defendesse essa solução, nem um. Destruíram-se pontes, rapidamente substituídas por outras em betão, abastardando assim a nossa memória colectiva.

Agora, e em nome de um possível “tsunami”, uma cabecinha pensadora vem vender a necessidade de se prolongar o molhe da Pontinha. Interessante: o “lobby” para a sua construção já não mora no Governo Regional. Transferiu-se para os Paços do Concelho.

Vamos por partes, um tsunami constitui-se por uma série de grandes ondas de comprimento e período extremamente longos, arrastando uma brutal quantidade de água e que, geralmente, são geradas por uma perturbação ou atividade submarina violenta e impulsiva perto da costa ou no oceano. Registem a brutal quantidade de água.

Suponhamos gastarmos os tais 100 milhões de euros para prolongar o porto do Funchal. Suponhamos que, por uma qualquer ocorrência, uma deslocação de placas provocava um terramoto que gerava um “tsunami”. Suponhamos que vinha na nossa direcção. A enorme massa de água limitar-se-ia a ver o seu avanço atrasado pelo molhe. Tenha ele o comprimento que quiserem. Porque fluida, a água acumular-se-ia e superaria o obstáculo sem muitos senãos. Foi assim com o “tsunami” que atingiu o Japão em 2011. E se há quem saiba destes fenómenos são os japoneses. Mais, porque falamos de um porto, não podemos esquecer a embocadura do mesmo, por onde a água não pedirá licença para entrar.

Uma ideia disparatada que só visa induzir o MEDO. O MEDO, há que trabalhar sob o império do MEDO. O MEDO que nos leva ao pânico. Esfregar bem na mente das pessoas, que podemos ser vítimas de ondas enormes, que entrarão pelo Funchal adentro. Ondas que tudo destruirão. Que matarão milhares. Um 1755 em Lisboa, transposto para o Funchal.

Segundo a brilhante intuição do presidente dos funchalenses, o prolongamento do Porto do Funchal “visava não só questões económicas e turísticas, mas também proteger a baixa e centro da cidade dos riscos de “tsunami”, mas que não foi caucionada pelo Estado, que não o achou “importante”, no âmbito do PRR (Programa de Recuperação e Resiliência), como a Região pretendia”. Que chatice… a obra que tanto jeito dava aos do betão, para quem trabalhou tão afincadamente.

Mas estudos, um estudo de custo/benefício, um estudo sobre o tal de risco de “tsunami”, “calls for interests” e “impact assessments”, orçamento e análise SWOT, um estudo sobre os custos de manutenção, coisas que se fazem em sociedades civilizadas que não são o umbigo do mundo, isso não, não é preciso. Eles sabem tudo, quando não sabem rigorosamente nada. É a “chico espertice” ao serviço do “pato bravismo”.

As coisas saem-lhe da boca para fora porque tem a certeza de que fala para quem conhece o seu verdadeiro objectivo, ou então para o resto, que se vai babar com um prolongamento absurdo do molhe da Pontinha, para que todos fiquem protegidos de um “possível” “tsunami”. Durmamos mais descansados. Valha-nos Santo Calado, que se fizesse jus ao nome era um poeta.

Pedro Calado ficará na história da política madeirense como uma figura macabra. Empenha-nos o futuro, tudo em que toca transforma-se em mentira ou betão, defende interesses obscuros, manipula a informação. É a personificação de tudo o que a política pode ter de errado. Acumula defeitos sendo destituído de qualidades.

Não se o menospreze. É um manipulador melífluo, de coluna adaptável a tudo. Perigoso porque ubíquo por ter uma enorme capacidade de parecer estar em todo o lado simultaneamente. Não tem medo nenhum de dizer estas parvoíces porque não as reconhece como tal. Porque sabe que o benefício pessoal é muito maior do que o custo. Pratica uma aparente cordialidade solidária que não sente. É o capataz dos interesses do poder económico dos Donos Disto Tudo, que alguns preferem fingir que não vêm.

Como disse Nelson Mandela: “não perguntes o que um tsunami pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer com um tsunami”. Ou então aquela outra: “Ich bin ein beton”.

4. A soma zero não tem nenhum valor. Se não tem valor é destituída de utilidade. É uma imponderabilidade matemática. O CDS Madeira soma zero à coligação governamental. Logo é inútil. E o PSD sabe disso. Pelo menos boa parte dele.

Ensina-nos o processo do desenvolvimento humano, que vamos alternando entre evolução e degeneração. É muito difícil acreditar em quem agora defende o oposto do que sempre defendeu. É penoso ouvir um alto dirigente centrista a falar “à la” Bloco de Esquerda, pedindo o controlo governamental dos preços. É penoso e é triste. Muito triste.

Cito Galloway: o CDS Madeira “é a primeira metamorfose de uma borboleta de volta a lagarta”. Após abandonar as lealdades políticas estabelecidas com o seu eleitorado, o CDS arrastou-se, nestes quase quatro anos, num lamaçal por si criado. Desertou sendo culpado de “crime” de apostasia, ao trocar ser conservador por uma espécie de “esquerdinha light”, facilmente demonstrável. Depois de, desde sempre, se ter posicionado contrário ao regime socialista da Grande Laranja, foi num instante que abençoou o que sempre combateu. Uma história de disputa e frontalidade contra o socialismo vigente, que deveria orgulhar quem a escreveu, foi, assim, deitada fora sem qualquer contemplação.

A liderança do partido transformou-se num enorme tédio, que manca agora sobre argumentos que sempre combateu, tentando, com o arrastar dos pés, enterrar no lameiro esses sinais que o passado teima em preservar. A falta de princípios põe em causa a qualidade das pessoas. Da vivacidade do pensamento, deslizaram para o amorfismo de nada pensar. Dependem da direcção do vento e do que emana do seu parceiro todo-poderoso. Não conseguem sequer perceber que o PSD é um eucalipto, que seca tudo à sua volta. De um partido onde coabitavam ideais e princípios, muitas vezes discordantes, desceram para um patamar de vazio que é confrangedor.

Como liberal que sou, com antigo militante do CDS Madeira, sinto a falta dos conservadores, pois, foi por eles que o liberalismo cresceu. O Liberalismo e o Conservadorismo são uma espécie de “Yin” e “Yang” da política.

Juntos, temos uma muito venerável história de oposição ao socialismo, ao radicalismo, ao identitarismo, ao totalitarismo, ao tribalismo, à censura, à defesa dos direitos humanos. Oposição ao nepotismo, à partidocracia, à corrupção, ao patrocínio carreirista, etc. Este CDS Madeira já não tem nada a ver com isto. Passou a fazer parte da equação de mais de quarenta anos.

“A política é uma divisão por definição”, disse Hitchens, é verdade. Mas as “nuances”, sempre nos aproximaram. A defesa dos direitos naturais e individuais, a liberdade sob todas as formas, o pluralismo, o respeito, o humanismo e a democracia são, para liberais e conservadores, valores universais por serem eles que fornecem o melhor fundamento — pela estabilidade, pela justiça e pelo racional — para o conseguirmos viver todos juntos, eliminando a tensão.

Sei, porque tenho amigos que ainda por lá andam, o que “dói” a muitos, este encontro contranatura. Pouco importa o que pensamos. O que verdadeiramente interessa é o modo como fazemos. A política torna-se desinteressante e sem importância quando se renegam os princípios. É de lealdade, de verdade, que ela se deve construir.