Crónicas

De regresso a casa

Eu voltei para casa que, mesmo desconjuntada, serviu de abrigo às tormentas. Foi lá que aguentei os estragos do cancro e que vivi a morte da minha mãe

Podemos ser uma casa como de um país? Eu acho que sim. Lembro-me de estar sentada no bar da faculdade, naquelas conversas depois do almoço e, não sei já o motivo, alguém teve a ideia de fazer quatro rabiscos num papel para cada um completar como entendesse. Era um jogo, dos muitos que se jogavam para ocupar o tempo nos longínquos anos 90.

Além do jogo do galo, o mais famoso era o ‘Stop’, mas esse dava para passar noites a discutir se o Burkino Faso era um país ou se o nerval existia ou era um animal mitológico. Não havia o Google para tirar dúvidas e, por isso, fui derrotada quando o caso foi a votos. E, naquele dia, calhou jogarmos aos rabiscos a ver onde nos levava a imaginação.

Sei que desenhei um rio e uma casa, a minha casa. E sei que, depois de feitos, saíram os resultados. O rio, fiquei a saber, era a minha imagem para o amor verdadeiro, já a casa representava o meu futuro. Lembro-me de que me pareceu redutor, tudo. O meu futuro e o amor. Eu tinha 20 anos e projectava uma vida gloriosa de aventura. O meu futuro na minha casa era como, se no jogo do monopólio, me mandassem para a casa de partida.

E o amor, bem o amor e um rio não pareciam encaixar. Talvez me faltasse poesia para entender a corrente que caminha para o mar, suave ou furiosa, que percorre vales, galga pedras e forma cascatas, sem nunca deixar de seguir o destino, o fim, que é mais à frente no oceano, o oceano que tanta falta me fazia em Lisboa.

Tudo aquilo era um jogo tolo, pensei, depois de dobrar o papel dos desenhos e de o meter entre as fotocópias de Semiótica Textual. Não me parecia possível regressar a casa, à velha casa do Laranjal depois do curso, após experimentar aquela sensação de liberdade, de ser mais um na multidão. A minha vida, pensava eu com a certeza dos 20 anos, seria ali, entre os prédios, ruas e avenidas largas. Ao Laranjal iria nas férias para ver a família e descansar na minha velha cama.

Quis a vida que o desenho se cumprisse. Eu voltei para casa que, mesmo desconjuntada, serviu de abrigo às tormentas. Foi lá que aguentei os estragos do cancro e que vivi a morte da minha mãe. E foi de lá que, há coisa de 20 anos, segui caminho, mas de uma certa maneira nunca deixou de ser a minha casa, o lugar onde cresci, onde fui de criança a adolescente e daí até ser a pessoa que sou hoje. Cada canto guarda uma história, nos móveis comidos pelo tempo está o meu pai, a minha mãe e as assinaturas do meu irmão que, em miúdo, escrevia onde calhava.

E é aqui, no meio de quartos que vão dar a outros quartos numa sequência sem lógica, que estou numa aventura para resgatar parte do meu passado, da minha história, da memória.