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Livrem-nos disso!

Já só faltava uma colherada de jardinismo a atormentar, mais uma vez, os madeirenses

Construir as bases da recuperação da região é o desígnio dos próximos anos. Uma tarefa hercúlea, mas ao mesmo tempo, desafiante pelo que pode significar de reposicionamento dos termos básicos do nosso desenvolvimento, numa arrojada e corajosa reinvenção do status quo, aproveitando para colocar o óbvio em causa. Normalmente um debate desta natureza esbarra num muro intransponível de défice de financiamento. Pela primeira vez, os meios financeiros existem e estarão disponíveis. O que parecia quase impossível está ultrapassado com sucesso. A UE deu um passo em frente numa inédita e extraordinária solidariedade com os estados e suportará, em conjunto, os termos da recuperação. Já está aprovado o Plano de Recuperação e Resiliência, por isso, está agora do lado dos países e das regiões prepararem-se para utilizar os meios e planear a sua recuperação.

Era, por isso, esperado um debate profundo, envolvente e participado da sociedade civil madeirense. Um diálogo mobilizado pelos diferentes autores políticos, e não apenas os executivos, para que a participação activa de académicos, empresários, quadros nas mais variadas áreas, sindicatos, instituições de solidariedade seja geradora de consensos e objectivos comuns. Neste tempo exigente de combate à pandemia e de desbloqueio das condições europeias para o financiamento, há muito trabalho a fazer. Não gosto do que observo. Não me conformo com uma alegre passividade com atenções e prioridades incompreensíveis, na substância e na forma. Não há nenhuma prioridade que ultrapasse, em dimensão, em importância e em relevância política, um esforço de consenso que não a construção das bases de recuperação. O que vamos fazer depois da pandemia ? Nunca foi avisado atirar dinheiro em cima dos problemas a torto e a direito. Quando assim é perde a comunidade e os ganhos desaparecem numa ampla teia de interesses que aproveitam a ausência de planeamento e de consensos, para, nos interstícios da cizânia, infiltrarem os seus egoísmos antissociais.

Não. Não é o mais fácil. Não. Não se faz com uma perna atrás das costas. Não. Não é desejável inventar prioridades que distraem os decisores e os políticos do que realmente importa. Não. Planear não é um passo intermédio despiciendo - é a etapa decisiva para usar bem e com resultados justos, abrangentes e, sobretudo, consistentes com os objectivos delineados para aumentar a riqueza, diminuir as desigualdades, diversificar a economia ou tornar mais sustentável, verde e digital o ecossistema que queremos (re)construir.

A Madeira poderá ter até 2030 mais de 2000 milhões de euros disponíveis, mas utilizar 1000 milhões de euros, conforme a capacidade do nosso tecido empresarial, em 3 anos (contando com PRR e parte do Quadro Financeiro Plurianual ) é complexo e exige muito sizo e preparação. As bases da reconstrução exigem saber o que fazer de forma minuciosa com clarividência e visão. Antes disso, porém, é imperativo definir as linhas estratégicas. Aviso, contudo , que este passo não é da responsabilidade absoluta do governo. É de toda a comunidade. Demais a mais, falta conceber o modelo de governação que um projeto de tal envergadura requer. Assim como o efetivo e exigente acompanhamento da sua execução, no qual a ALRAM deve ter papel decisivo. Por tudo isto, pergunto: quem anda para aí a inventar agendas políticas paralelas escusadas, quiçá contraproducentes, por parecerem mais endógenas, movidas por assombrações, que exógenas, e apontadas às grandes transformações? Já só faltava uma colherada de jardinismo a atormentar, mais uma vez, os madeirenses. Pensemos mais alto, não caiamos outra vez no lugar de baixo. Por favor, livrem-se disso! E livrem-nos disso!

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