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(De) novo ano

O negacionismo não se restringe à nota folcolórica oferecida por movimentos terraplanistas

A cada início de novo ano associa-se uma espécie de esponja retemperadora de onde se espreme uma água de esperança sobre o que resta da espuma do ciclo que se completa e se quer renovar num esquecimento viciado. Os dias derradeiros, de cada ano, possuem essa propriedade de absolvição e esquecimento em relação aos primeiros que lhes antecederam. Cada ano parece compor-se por três partes distintas com duração variável, sendo a primeira o apontar de uma novidade que se diluirá num segundo período, mais longo e entretido, a que se seguem uns curtos dias de festa e esquecimento e assim sucessivamente. Dir-se-ia que pouco ou nada de novo ,mas, na realidade, por muito que se queira reduzir a coisa a expressões simplistas dando conta da velocidade a que o tempo corre ou à confirmação da verdade associada ao eterno retorno, individual ou global, histórico ou meramente perceptivo, a verdade é que se vão adicionando determinantes que dão corpo ao novo que se tem de considerar.

Uma das novidades cuja aceitação tem sido adiada, apesar das evidências (e de custos elevadíssimos), tem a ver com as mudanças globais, com base climática, mas de alcance mais vasto. É ainda tamanha a distância entre a informação disponível e a efectiva internalização das suas considerações e impactos, o que nos remete para um vazio igualmente enorme e absurdo, que urge preencher. À consciência e sensibilidade consensuais, perante a informação e evidências, junta-se uma sensação de impotência e incapacidade em assumir medidas concretas. O cenário catastrófico que se adivinha para um futuro no qual teremos que lidar com diferentes pandemias ao estilo da COVID19, ou ao aumento da frequência de eventos extremos associados às alterações climáticas, não se apresenta muito encorajador perante a quase inexistente resposta, para não referir a persistência negacionista. Infelizmente, o negacionismo não se restringe à nota folcolórica oferecida por movimentos terraplanistas. Orgânicas e funcionalidades desajustadas, discursos e práticas contraditórias e orçamentos absolutamente imutáveis e vazios, dão-nos conta do absoluto nada de novo em cada ano novo disfarçado pelos registos de discursos de conveniência que assinam o ponto redentor da pretensa consciência e modernidade, tão efémeras quanto os desejos e resoluções de cada ano novo.

A novidade, a existir, virá um pouco mais tarde, com o balanço, contabilidade de custos, constatação de vulnerabilidades e reconhecimento de impossibilidades. Vem longe, ainda, essa percepção. Há quem persista na ideia de que terminada a guerra, bastará enterrar mortos, recuperar feridos e tudo voltará à maravilha do antes. Isso não irá acontecer, por duas razões. Porque não havia maravilha e porque o antes não passou de um conjunto de circunstâncias e contributos que nos conduziram ao que ainda nem sabemos bem o que é e, muito menos, como nos vai deixar ser. Planear para tempos incertos e gerir sistemas complexos em transição acelerada nunca foi o ponto forte da espécie humana. O sucesso da nossa espécie foi sempre marcado pelo controlo, domesticação, previsibilidade e antecipação calculada, servido por uma criatividade e inteligência imensuráveis mas também inconscientes e ignorantes quanto ao reconhecimento dos limites e capacidades dos suportes biofísicos de que dependemos. Se houve tempo em que a inteligência se constituiu como argumento imperativo, é hoje esse tempo.

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