Colômbia recorda Garcia Márquez
O relato, como um espelho, que o escritor Gabriel Garcia Márquez fez da Colômbia ficou impregnado no coração de um país que venera o mais universal dos seus escritores e de cujo nascimento se assinalam hoje 90 anos.
Este ano, passa ainda meio século sobre o seu romance “Cem anos de solidão”, 70 anos da publicação do primeiro conto e 35 da atribuição do Prémio Nobel da Literatura, motivos que justificam as homenagens que se preparam na Colômbia.
“O risco é a mitificação, face ao que a minha única resposta é que nessa obra tão extensa e vida cheia de detalhes e experiências e histórias por contar é necessário evitar o cliché em torno de Garcia Márquez”, afirmou à Efe o diretor da Fundação para o Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI), Jaime Abello.
Gabo, como é popularmente conhecido, vai a caminho do mito: a nova nota de 50 mil pesos (cerca de 16 euros) tem impresso o retrato do Nobel colombiano, uma nova série de ficção televisiva narrará a sua vida e os ‘graffitis’ retratando-o tomam as cidades de Colômbia.
Contra essa ascensão à “Torre de Marfim” dos escritores, o diretor e cofundador da FNPI recomenda que se “entenda as suas múltiplas dimensões”.
“[É necessário conhecer] o homem na sua vida familiar, o contador de histórias, o educador do cidadão e o empreendedor”, sublinha Jaime Abello, que dirige a fundação que foi criada por Gabriel Garcia Márquez.
A FNPI aspira a que haja um “conhecimento completo, ordenado e confiável dos diversos aspetos” da vida do “filho do telegrafista de Aracataca”, pequena povoação localizada na região caribenha de Magdalena, onde nasceu a 06 de março de 1927 e que o inspirou para criar o universo de Macondo, povoação fictícia descrita em “Cem anos de solidão”, “Os Funerais da Mamã Grande”, “O enterro do diabo: A revoada” e “Monólogo de Isabel vendo chover em Macondo”.
Aliás, foi das ruas de Aracataca que nasceram os seus principais contos e romances, como confessa o próprio autor no livro de memórias “Viver para contá-la”.
No caminho para a mitificação, escritores, políticos e até guerrilheiros citam Gabo como fonte de autoridade, enquanto os jornalistas não se cansam de iniciar relatos com a fórmula “Crónica de uma notícia anunciada”
Por isso, Jaime Abello considera necessário escapar do cliché, da repetição, do facilitismo porque considera que Gabriel Garcia Marquez, falecido a 17 de abril de 2014, aos 86 anos de idade, “dá para muito”.
“Ele é muito mais do que borboletas amarelas”, destaca Jaime Abello, acrescentando que antes “do cliché do realismo mágico”, prefere o do “pragmatismo mágico”.
A FNPI presta-lhe hoje homenagem com a apresentação dos Prémios Gabriel Garcia Márquez de Jornalismo 2017.
E para retirar Garcia Márquez da montra de vidro, a Biblioteca Nacional de Colômbia inaugurou no ano passado “A Gaboteca”, uma página da internet que compila a vida e a obra do vencedor do Nobel da Literatura em 1982.
Nesse espaço estão compiladas resenhas de todas as obras do escritor colombiano, textos de diferentes autores sobre Garcia Márquez e traduções para outras línguas, com o objetivo de aproximar o autor do grande público.
Como parte desse trabalho, o Ministério da Cultura e a Biblioteca Nacional de Colômbia lançaram este mês de março duas bolsas dirigidas a investigadores da obra e vida de Garcia Márquez para que continuem os seus estudos no Centro Harry Ransom da Universidade do Texas, onde está guardado o arquivo pessoal do Nobel.
A D.Quixote, chancela do grupo editorial Leya, publicou em janeiro pela primeira vez em Portugal “Em Viagem pela Europa de Leste”, uma crónica testemunhal da viagem que o escritor realizou pelos países socialistas nos anos de 1950.