A liberdade de conquistar numa conversa
Valter Hugo Mãe e Sandra Nobre partilharam com o público livros, vidas e crenças
Liberdade, livros, viagens e humor misturaram-se esta manhã no Fórum Machico num dos eventos descentralizadores do Festival Literário da Madeira. Inicialmente com Valter Hugo Mãe e Marcelino Freire, a conversa assistida por algumas turmas do concelho acabou por contar com Sandra Nobre em substituição do segundo, numa conversa moderada por Sónia Silva Franco.
‘A nossa liberdade começa onde podemos impedir a do outro’ deu o mote para a conversa, com os convidados a se demarcarem da frase de Millôr Fernandes. Valter Hugo Mãe acredita que a liberdade não pode ser proibitiva. Liberdade é alguma coisa que não impeça nada, disse, voltando a colocar a tónica na necessidade de olhar para a questão de uma forma positiva. “A pura liberdade só aconteceria se este estado de graça fosse contínuo”, afirmou este escritor, um artista com muitos outros ofícios, “ansioso por curar o mundo”.
Na perspectiva de Sandra Nobre, a liberdade é um conceito relativo e pode passar, para esta jornalista, por estar cinco dias sem se ligar ao mundo dentro do quarto de um hotel, como pelo exercício da escrita. “Cada um constrói a sua própria liberdade”, afirmou, explicando que se pode ser livre dentro de quatro paredes e prisioneiro num país, como no Butão.
De livros também se falou neste encontro, uma oportunidade tocar a “censura” de um dos livros de Valter Hugo Mãe que estava no Plano Nacional de Leitura para o 3.ª Ciclo e que foi colocado na lista para o Secundário depois da crítica de alguns pais que não concordaram com a linguagem usada em duas páginas da obra . O autor não compreende a decisão, numa altura em que há programas como ‘A Casa dos Segredos’, Internet e outras fontes de informação disponíveis para jovens de 12, 13 anos. “Só prova que os livros ainda assustam as pessoas”, disse.
Nesta conversa a três, estendida a várias dezenas, Herberto Helder foi recordado, com o escritor a falar da importância do poeta madeirense no seu percurso enquanto escritor. Convidado a falar sobre formas de incentivar para os livros, defendeu que não pode passar pela tirania, mesmo que da qualidade. A padronização, acredita, tem efeitos contrários, e que é importante encontrar os livros certos para cada pessoa, em participar para quem começa a ler.
Sandra Nobre, por seu lado, acredita que o incentivo para a leitura está essencialmente dentro de cada um e que passa depois por encontrar um autor ou um tema que convide a pegar nos livros.
Entre histórias pessoas, momentos de escrita e influências, a conversa alongou-se por mais de uma hora. Depois houve ainda tempo para perguntas da plateia.