Textos dispersos e inéditos de Paquete de Oliveira reunidos num só livro
Os textos académicos do sociólogo Paquete de Oliveira, que se encontravam dispersos por inúmeras publicações, as suas reflexões enquanto provedor e ainda textos inéditos encontram-se pela primeira vez compilados num livro editado pela Tinta-da-China.
“Uma obra há muito esperada” é como Gustavo Cardoso, professor, colega e amigo de Paquete Oliveira, responsável pela seleção e organização dos textos, classifica o livro “Comunicação e Quotidiano”, que começa com a sua tese de doutoramento e termina com o seu último texto.
Trata-se de um “testemunho valioso para uma época marcada por novos desafios da comunicação ao quotidiano, como as ‘fake news’ e a erosão da confiança entre os públicos e os media”, classifica a editora.
No entanto, Gustavo Cardoso, companheiro de trabalho no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, onde José Manuel Paquete de Oliveira deu aulas ao longo de mais de 30 anos, vai mais longe e considera que esta é uma obra para ser relida por todos os que o conheceram no mundo universitário das ciências da comunicação ou que com ele contactaram através da televisão e jornais, e, sobretudo, é um legado para as próximas gerações.
“Acreditamos que a sua leitura será ainda mais importante para aqueles que não o conheceram” e que, ao lerem o livro, descobrirão um pensamento e uma escrita fundamentais para compreender como a comunicação moldou, molda e moldará o nosso quotidiano português e global”, escreve no prefácio.
Gustavo Cardoso destaca que Paquete de Oliveira foi “um daqueles raros académicos que também sabem conjugar comunicação e quotidiano”, tendo desenvolvido uma teoria de leitura do social e sabido comunicá-la para além da universidade, através dos meios de comunicação do final do século XX e início do século XXI -- jornais, televisão e Internet.
Até à publicação deste livro, a obra de Paquete de Oliveira, que morreu a 11 de junho de 2016, encontrava-se dispersa por múltiplas publicações académicas e livros.
A grande dificuldade de aceder aos seus textos residia no facto de grande parte deles estarem apenas disponíveis mediante consulta presencial em bibliotecas e sem listagem exaustiva em qualquer repositório nacional ou internacional.
“Comunicação e Quotidiano” procura resolver essa dificuldade, apresentando os textos organizados segundo um princípio temático e cronológico.
Simultaneamente, esta obra pretende lembrar e homenagear Paquete de Oliveira “da forma que ele mais apreciava: comunicando e deixando que quem o ouvisse ou lesse passasse a olhar o quotidiano e a comunicação de forma diferente”, lê-se no prefácio.
O primeiro capítulo -- “Sociologia da Comunicação” -- recupera dois textos da sua tese de doutoramento, defendida nos anos 1980.
O segundo capítulo aborda a necessidade de pensar a comunicação enquanto “parceira” de outros conceitos, como informação e cultura, e inclui o texto escrito em coautoria com Joaquim Pais de Brito e António Firmino da Costa sobre as aldeias portuguesas e os agentes mediadores da comunicação.
O terceiro capítulo agrega um dos aspetos centrais do pensamento de Paquete de Oliveira, a “censura oculta”, enquanto o quarto capitulo se centra num “tema caro” ao sociólogo: a relação entre comunicação, media e cidadania.
O quinto capítulo do livro abre uma reflexão sobre os media em Portugal e a sua evolução histórica, ao passo que o sexto capítulo reúne os textos que José Manuel Paquete de Oliveira escreveu enquanto provedor do jornal Público.
O posfácio escolhido para terminar o livro é um texto inédito que “sintetiza a forma de pensar, provocar e desafiar, característica da sua visão sociológica”.
A última frase -- “a responsabilidade dos media no nosso futuro e no sentido de vida a levar está por estudar e tem um projeto por realizar” -- deixa no ar o desafio de continuar o estudo da comunicação numa perspetiva sociológica.