Iniciativa ibérica dá cerca de dois milhões a quatro projectos científicos portugueses

Lisboa /
16 Set 2019 / 11:00 H.

Quatro projectos científicos portugueses na área da saúde vão receber cerca de dois milhões de euros atribuídos por uma iniciativa ibérica que envolve a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e a Fundação La Caixa, foi hoje anunciado.

Os projectos, financiados no âmbito da Iniciativa Ibérica de Investigação e Inovação Biomédica, são coordenados pelos cientistas Bruno Silva-Santos, Leonor Saúde, Marc Veldhoen (Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes) e Miguel Soares (Instituto Gulbenkian de Ciência), divulgaram ambas as instituições num comunicado conjunto.

Os estudos, a realizar num prazo de três anos, incidem sobre imunoterapia contra o cancro, regeneração da medula espinal e doenças infecciosas como a sépsis.

Os trabalhos liderados pelos investigadores Bruno Silva-Santos e Marc Veldhoen serão financiados pela fundação bancária espanhola, que os seleccionou através da segunda edição do concurso La Caixa para projectos ibéricos de investigação científica em saúde, e os de Leonor Saúde e Miguel Soares serão apoiados pela fundação portuguesa FCT.

Bruno Silva-Santos, investigador e vice-presidente do Instituto de Medicina Molecular (IMM) João Lobo Antunes, lidera a equipa portuguesa que vai trabalhar em parceria com um grupo de cientistas espanhóis para testar em ratinhos uma imunoterapia celular combinada para combater a leucemia mieloide aguda, o cancro do sangue mais agressivo, para o qual a taxa de sobrevivência dos doentes a cinco anos, após quimioterapia, é de apenas 20 por cento.

O projecto propõe-se combinar uma tecnologia desenvolvida pelo laboratório de Bruno Silva-Santos, a das células DOT (células imunitárias T que são alteradas para reconhecerem melhor as células cancerígenas e, assim, levarem à sua morte) com uma tecnologia usada no laboratório de Pablo Menéndez, em Barcelona, a das células CAR-T (células T que são modificadas para identificarem uma célula tumoral específica).

Bruno Silva-Santos explicou à Lusa que as células DOT “são eficazes a combater tumores, inibindo o seu crescimento, mas não são curativas quando usadas em modelos animais”.

O que a sua equipa pretende fazer, em colaboração com o grupo de Espanha, é dar “maior eficácia” às células DOT para que haja “erradicação completa” da leucemia mieloide aguda em ratinhos.

Para tal, estas células serão modificadas geneticamente com um CAR (recetor antígeno quimérico, que é um recetor artificial introduzido nas células imunitárias T, por métodos de engenharia genética, para que reconheçam certas substâncias da membrana das células cancerígenas).

A ideia, segundo o investigador do IMM, é que as células DOT possam reconhecer “uma molécula abundante” nas células de leucemia mieloide aguda, conduzindo à sua eliminação.

O projecto de investigação vai receber da Fundação La Caixa um milhão de euros, montante repartido pelas equipas científicas portuguesa e espanhola.

Leonor Saúde, também cientista do IMM, terá 450 mil euros para coordenar um projecto que pretende “compreender melhor a natureza” das células senescentes, associadas ao processo de envelhecimento, e validar a eficácia de um medicamento anticancerígeno na regeneração da medula espinal.

A sua equipa verificou, numa experiência anterior com ratinhos, que o fármaco tinha um efeito reparador de problemas motores e sensoriais provocados por lesões na medula espinal, ao eliminar as células senescentes que se acumulavam ao longo do tempo nas zonas lesionadas da medula espinal.

“Recuperaram alguma função motora e sensitiva”, afirmou a cientista à Lusa, acrescentando que o novo estudo se propõe testar o medicamento num universo maior de roedores.

Ao contrário dos mamíferos, os peixes-zebra têm a capacidade de regenerar a medula espinal e eliminam as células senescentes, evitando a sua acumulação, adiantou Leonor Saúde.

Também do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, o cientista Marc Veldhoen irá coordenar um projecto, financiado com 500 mil euros, que “procura compreender e caracterizar o papel de um subtipo específico de células reguladoras” do sistema imunitário, os linfócitos residentes nos tecidos, que “podem ser importantes na protecção contra infecções ou tumores”, refere o comunicado conjunto do IMM e IGC.

De acordo com o comunicado, estas células “permanecem no local da infecção inicial e oferecem protecção rápida após reinfecção”, mas desconhece-se como o seu desenvolvimento é regulado e como podem contribuir para a defesa do organismo.

Ao “investigar o mecanismo celular e molecular que regula o desenvolvimento dos linfócitos residentes em tecidos”, a equipa de Marc Veldhoen quer perceber como pode melhorar o sistema imunitário “para combater infecções existentes e futuras”.

Igualmente contemplada com 500 mil euros, a investigação liderada por Miguel Soares, do Instituto Gulbenkian de Ciência, procurá dar resposta à questão: “Podemos curar a sépsis através da regulação do metabolismo?”.

Segundo o investigador, citado no mesmo comunicado, “a reprogramação metabólica” do doente “é central no estabelecimento da tolerância à sépsis”, uma infecção generalizada grave que pode levar à morte.

Para Miguel Soares, “importa compreender que genes operam fora do domínio da imunidade para regular o metabolismo do ferro e da glucose no organismo e, assim, estabelecer a tolerância à sépsis”.

Na segunda edição do concurso de projectos de investigação em saúde da Fundação La Caixa, destinado a estudos realizados por equipas científicas portuguesas e espanholas, foram seleccionados 22 projectos, de um total de 632 candidaturas.

Ao abrigo da Iniciativa Ibérica de Investigação e Inovação Biomédica, a Fundação para a Ciência e Tecnologia compromete-se a igualar o investimento feito pela fundação espanhola em projectos liderados por instituições portuguesas no âmbito do concurso, financiando projectos científicos igualmente considerados excelentes.

A primeira edição da iniciativa, lançada em 2018, apoiou o dobro dos projectos científicos portugueses face a 2019, oito no total, com uma verba de cerca de cinco milhões de euros.

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