A lógica da batata: vender barato e comprar caro
Vou dizer-vos que eu estava muito indecisa sobre o tema do artigo de opinião deste mês, porque o Mundo tem produzido tanto material de interesse público, seja ao nível local, nacional ou mundial, que se torna difícil escolher.
Acabei por optar pelo tema da habitação, que me parece ser, nos tempos que correm, aquele que mais aflige as pessoas e ensombra o futuro próximo, caso os decisores atuais não demonstrem sensibilidade política e reconheçam o problema que temos entre mãos. O tema é também abrangente, afetando, praticamente, todos os cidadãos da classe trabalhadora das sociedades capitalistas.
Vou, no entanto, fazer uma breve reflexão a partir de dois exemplos da nossa realidade insular e da nacional. Um do ponto de vista do cidadão e outro do decisor.
Os preços para aquisição de casas, na Madeira, estão proibitivos, como sabemos. Por outro lado, o mercado de arrendamento, sem regulação, eleva o preço da renda deixando as pessoas sem alternativa. Chegou aqui a realidade do mercado imobiliário marcadamente liberal, como expoente máximo os Estados Unidos da América. Achava estranho que uma grande parte da população morasse em parques de campismo ou que pagasse 600 dólares, há 25 anos, por um quarto de dormir com casa de banho partilhada, em São Francisco.
Este cenário não andará muito longe da realidade portuguesa, caso não se tomem medidas urgentes. Há dias, uma professora do continente, colocada na Madeira, mostrou-se aflita com a perspetiva de ficar sem casa já a partir de agosto, pois não encontra rendas a menos de 800 euros, por um T0. Como esperar manter os trabalhadores, numa terra que oferece pouca diversidade laboral e salários baixos?
Também não me parece razoável que o Estado/Região sustente a capacidade de oferta de habitação no investimento privado. As políticas de habitação têm de contar com oferta pública. Que haja mercado imobiliário direcionado para o investimento e lucro não me choca. Mas eis que me deparo com uma notícia de que o Estado Português colocou à venda 8 imóveis, em Lisboa, que poderiam servir para 500 casas de habitação pública a preços abaixo dos valores do mercado. Ou seja, o Estado vende o que é seu mais barato do que compra. Que lógica é esta? Alienar património estatal apto para habitação quando há tanta gente “à rasca”? Pergunta um cidadão comum: mas não há falta de habitação em Lisboa? É incompreensível e inaceitável.
Estas decisões do Governo da AD são reflexo da sua visão social. Na Madeira, segue-se a mesma corrente de pensamento. E ainda se acha que os partidos são todos iguais.