Entre a oportunidade e o oportunismo político
Na gestão dos assuntos públicos existe uma diferença fundamental entre aproveitar uma oportunidade e agir por oportunismo. A primeira atitude implica visão, planeamento e capacidade de concretizar ideias em benefício da comunidade. A segunda consiste, muitas vezes, em lançar anúncios ou propostas mediaticamente apelativas sem que existam condições reais para a sua execução, procurando sobretudo influenciar a perceção pública ou desviar atenções de temas que geram desconforto.
Os cidadãos estão cada vez mais atentos a esta distinção. Quando surge uma notícia sobre a eventual venda de um imóvel com relevância cultural e, logo de seguida, aparece a ideia da sua classificação como património municipal, é legítimo questionar se se trata de uma iniciativa amadurecida ao longo do tempo ou de uma resposta circunstancial à pressão mediática. A valorização e proteção do património são objetivos nobres e desejáveis, mas ganham credibilidade quando resultam de uma estratégia consistente e não apenas da reação a acontecimentos do momento.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado à questão da habitação. Quando outras autarquias já apresentam projetos concretos, estudos concluídos, terrenos identificados e candidaturas preparadas, o simples anúncio da disponibilidade de terrenos para centenas de fogos pode ser recebido com reservas.
Ainda para mais quando esses terrenos são em zonas de pouco interesse e a construção depende do investimento privado, que pode (ou não!) estar disponível para avançar com esses projetos.
Entre manifestar uma intenção e uma casa construída existe um longo caminho de planeamento, financiamento, licenciamento e execução. Por isso, mais importante do que anunciar números ambiciosos é demonstrar etapas concretas, prazos e compromissos verificáveis.
A política local não deve viver de manchetes nem de reações de circunstância. Deve viver da capacidade de antecipar problemas, preparar soluções e apresentar resultados. Quando as propostas surgem apenas depois de notícias incómodas ou de anúncios feitos por outras entidades, instala-se inevitavelmente a dúvida sobre as verdadeiras motivações. Estaremos perante oportunidades genuínas de desenvolvimento ou apenas perante tentativas de condicionar a agenda pública?
A confiança dos cidadãos constrói-se através da coerência. Não basta afirmar que se quer proteger património ou promover habitação. É necessário demonstrar que existem planos, recursos e vontade efetiva para concretizar essas intenções. Caso contrário, corre-se o risco de transformar objetivos legítimos em meros exercícios de comunicação política.
No final, a diferença entre oportunidade e oportunismo mede-se pelos resultados. As ideias sérias sobrevivem ao ciclo noticioso e transformam-se em obras, projetos e benefícios para a comunidade.
As ideias lançadas apenas para captar atenção desaparecem tão rapidamente quanto surgiram, deixando para trás a sensação de que se falou muito, mas se fez pouco.
E pelos lados de Santa Cruz, infelizmente, ideias há muitas, obras em que nem vê-las.