DNOTICIAS.PT
Mundo

"Uma voz disse-me para sair" do autocarro, diz criança sobrevivente

Foto ELTON MONTEIRO/Lusa
Foto ELTON MONTEIRO/Lusa

"Uma voz disse-me para sair e sentar numa pedra": foi assim que a criança de seis anos contou como conseguiu sobreviver à queda do autocarro que causou 25 mortos na ilha cabo-verdiana do Fogo.

 "Ontem a minha sobrinha chegou no meu regaço e disse: 'tia, eu fui parar ao fundo de uma ribeira'. Eu espantada perguntei: 'mas Bebé [como é conhecida na comunidade], como saíste do autocarro' e ela respondeu-me que uma voz lhe disse para sair [do veículo] e sentar-se numa pedra que alguém iria lá buscá-la", disse à Lusa, Tatiana de Pina de 31 anos, que perdeu sete familiares no acidente.

A criança, Marly, conhecida na comunidade por Bebé, não teve qualquer fratura no acidente, apenas um pequeno ferimento ligeiro na testa.

"Ela está bem, parece normal", contou, explicando que a sobrinha não soube dizer de quem era a voz.

"As primeiras pessoas que foram resgatar disseram que encontraram-na sentada numa pedra", acrescentou, apontando ser necessário acompanhamento psicológico, sobretudo porque a menina perdeu o irmão no acidente.

Na comunidade rural do concelho de São Filipe, onde cresceram juntos muitas das crianças e adolescentes que morreram, o poço e o campo de terra continuam ligados às memórias das brincadeiras.

"Cuidavam das cabras, das vacas, dos porcos e das galinhas. Via-os sempre a jogar à bola", recordou Tatiana.

Quatro dos sete familiares que perdeu foram sepultados no domingo.

A recuperação dos corpos dificultou a identificação de algumas vítimas.

"Um primo reconheceu o único filho apenas pela roupa, porque o corpo estava irreconhecível", contou.

Maria Lopes, de 53 anos, perdeu dois netos e um sobrinho, que a ajudavam nas tarefas de casa e na pastorícia.

"Eram os meus grandes amigos. Chamavam-me mamã", contou.

Marly, que sobreviveu no acidente é sua neta e considera que ter saído ilesa "foi um grande milagre".

"Disse-lhe: 'Marly, se tivéssemos morrido também, eu não iria aguentar'. E ela respondeu: 'Vovó, eu caí, mas alguém me disse para ir sentar numa pedra'", afirmou.

Cris Gomes, de 16 anos, seguia num outro veículo que também transportava alunos para o passeio e seguia à frente do autocarro.

"Estávamos a cantar e a dançar, mas, de repente, ouvimos uma buzina. Depois o autocarro ultrapassou-nos e acabou por sair da estrada e cair", contou o adolescente, que vai frequentar o 10.º ano.

Cris contou que não conseguiu descer a ravina para ajudar e lamentou a morte dos colegas.

"Guardo no meu telemóvel as últimas fotografias e vídeos que fizemos no passeio, outros ainda a dançar dentro do carro", disse.

"Estávamos muito felizes. O mais difícil é saber que já não tenho colegas para ir jogar à bola no nosso campo de terra", lamentou.

Janice Pires, de 32 anos, perdeu o pai, que tinha oito filhos, trabalhava no campo e criava animais.

"O meu pai é tudo para nós. É um homem batalhador. Criou-nos até agora e nunca se cansou de nós", disse.

Funcionária de uma das escolas, Janice conhecia os alunos que morreram e costumava acompanhá-los nos passeios anuais naquele autocarro.

Na véspera do acidente, o condutor perguntou-lhe se iria com o grupo, mas, entretanto disse que não.

"Deus tirou-me do caminho. Podia estar com eles no carro", afirmou.

No Agrupamento III da Escola do Curral Grande, no concelho de São Filipe, o diretor Jailson Cardoso prepara o início do ano letivo, marcado pela morte de 14 alunos de três escolas do agrupamento.

A escola prepara uma sala de apoio para alunos e professores e prevê acompanhamento psicológico ao longo do ano letivo.

O diretor teme que a tragédia afete o desempenho escolar e lembra a relação próxima entre professores e alunos.

"Os alunos são os nossos filhos. É uma família", disse.

O presidente da Câmara de São Filipe, Nuías Silva, considerou a sobrevivência de alguns passageiros um "verdadeiro milagre" e defendeu homenagens às vítimas e aos envolvidos no resgate.

O autarca propôs que 05 de setembro passe a ser uma data de reflexão sobre segurança e prevenção rodoviária e revelou que está a ser ponderado um monumento no local do acidente, com os nomes das vítimas, além de homenagens no cemitério onde foram sepultadas.

O acidente ocorreu no sábado, em Campanas de Cima, no concelho de Santa Catarina do Fogo, quando o autocarro saiu da estrada e caiu cerca de 50 metros por uma ravina.

Morreram 25 pessoas e 13 ficaram feridas.

A maioria das vítimas eram estudantes e jovens.

O Governo cabo-verdiano decretou dois dias de luto nacional.

Equipas médicas, de emergência e de apoio psicológico foram deslocadas para a ilha do Fogo, enquanto prosseguem os trabalhos para determinar as circunstâncias do acidente.

A Estradas de Cabo Verde, empresa pública responsável pela gestão da rede rodoviária nacional, está no local para avaliar as condições da via.