Será que ir ao restaurante está a tornar-se menos acessível aos madeirenses?
Uma publicação na plataforma online Reddit alerta para o cenário “absurdo da restauração na Madeira”, devido ao aumento acentuado de preços. “O Funchal é capaz de ficar um dos sítios mais caros do país para almoçar/jantar fora e já roça o ridículo”, indigna-se o autor do texto, que garante que “parece que é agora norma (…) restaurantes medianos com pratos a 25 euros e sobremesas a 8 euros”. “Isto são preços de aeroporto de Zurique [Suíça]”, acrescenta, referindo que alguns restaurantes estão a fixar os seus preços a pensar nos turistas em detrimento da clientela regional.
Vários cidadãos escreveram comentários a apoiar a ideia contida na publicação, sobretudo os residentes. “Alguns [restaurantes] deixei de ir com as subidas de preço e outros nem fui uma única vez”, observou um madeirense. Já entre os turistas, as avaliações divergem. Uns acham mais dispendioso, outros consideram barato.
Será que os madeirenses têm motivos para achar que almoçar e jantar fora tornou-se uma experiência mais cara e inacessível nos últimos tempos?
Para a elaboração deste Fact-check cruzámos informações da Direcção Regional de Estatística da Madeira (DREM), designadamente os referentes ao Índice de Preços no Consumidor (IPC) por subgrupo.
A série anual da DREM/INE para a componente específica “Restaurantes, cafés e estabelecimentos similares” mostra um índice de 102,351 em 2014 e de 141,957 em 2025. Isto significa que os preços deste conjunto de serviços aumentaram 38,7% em onze anos. No mesmo período, o IPC total da Região passou de 100,719 para 123,741, correspondendo a uma subida acumulada de 22,9%.
A diferença é significativa. Entre 2014 e 2025, restaurantes e cafés encareceram quase 16 pontos percentuais mais do que o conjunto dos bens e serviços consumidos na Madeira. Ou seja, os preços da restauração na Madeira subiram de forma muito expressiva nos últimos anos e cresceram claramente mais do que o nível geral de preços. A restauração encareceu muito mais do que o cabaz geral.
Se olharmos de uma forma mais detalhada para o período em análise, verificamos que foi nos últimos cinco anos que os preços dos restaurantes e similares mais subiram.
Entre 2021 e 2025, os preços dos restaurantes, cafés e similares dispararam 32,9%. No mesmo espaço de tempo, o IPC geral aumentou 20,0% e a remuneração bruta total média avançou apenas 22,8%. Isto significa que, nos quatro anos mais recentes com dados anuais completos, os preços da restauração cresceram cerca de 10 pontos percentuais mais do que a remuneração média total. Traduzido em poder de compra, um trabalhador que acompanhasse exactamente a evolução da remuneração média teria, em 2025, cerca de 7,6% menos capacidade para comprar o mesmo “cabaz” de restauração que em 2021. Considerando apenas remuneração regular ou base, a perda aproxima-se dos 9%.
Nos dados mais recentes da DREM, a nova série do IPC tem por base 2025=100 e o índice específico de “Restaurantes, cafés e estabelecimentos similares” passa de 101,251 em Agosto de 2025 para 107,299 em Agosto deste ano, uma subida homóloga de aproximadamente 6,0%.
Do lado dos salários, o último dado disponível é ainda o do 2.º trimestre de 2026. Aqui a remuneração bruta total média aumentou 4,2%, a regular 4,7% e a base 4,3%. A remuneração total chegou aos 1.748 euros, mas caiu 0,3% em termos reais face ao mesmo trimestre de 2025.
Em jeito de conclusão, os dados estatísticos confirmam a ideia percepcionada pelos cidadãos que dizem que a restauração na Madeira ficou mais cara e menos acessível nos últimos anos. Aliás, encareceu bastante mais do que o nível geral de preços.