Estudo comprova que as florestas nativas dos Açores conseguiram preservar comunidades de artrópodes
Um estudo realizado por investigadores das universidades de Lisboa e dos Açores comprovou que nas florestas nativas açorianas há comunidades de artrópodes que se mantiveram estáveis e até cresceram, contrariando uma tendência mundial de colapso.
"Este estudo sintetiza mais de 25 anos de trabalho de campo, laboratório, identificação taxonómica e colaboração científica internacional. A principal mensagem é que proteger a floresta nativa funciona, mas não basta: é necessário manter a monitorização a longo prazo e atuar de forma dirigida sobre as espécies e habitats mais vulneráveis", afirmou o coordenador do projeto "Biodiversity of Arthropods from the Laurisilva of the Azores" ("Biodiversidade dos Artrópodes da Laurissilva dos Açores"), Paulo Borges, citado em comunicado.
O entomologista é investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Universidade de Lisboa, baseado na Universidade dos Açores.
O estudo "Stability in the Face of Global Decline: A 20-Year Study of Arthropods in an Oceanic Archipelago" ("Estabilidade perante o declínio global: um estudo de 20 anos sobre artrópodes num arquipélago oceânico"), publicado agora na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature Portfolio, foi liderado pela Universidade dos Açores em colaboração com outras instituições internacionais.
Entre os artrópodes (grupo de pequenos animais que inclui insetos ou até crustáceos) integrados nesta investigação encontram-se espécies nativas dos Açores como as aranhas "Macaroeris diligens" e "Pisaura acoreensis" ou os escaravelhos "Cedrorum azoricus" e "Crotchiella brachyptera".
Apesar de, num contexto global, se assistir a um declínio dos insetos e de outros artrópodes, que tem gerado preocupação científica e pública, os resultados obtidos nos Açores comprovam que "nem todas as comunidades de insetos seguem uma trajetória uniforme de colapso, sobretudo quando os habitats nativos ainda se mantêm protegidos".
Segundo o estudo, cerca de 28% das espécies analisadas ao longo de mais de duas décadas apresentaram "declínios significativos", mas 17% aumentaram a população e mais de metade (55%) mantiveram-se estáveis.
Os autores encaram, por isso, a floresta nativa dos Açores como um "símbolo de resistência da biodiversidade", mas alertam que estes dados não devem ser interpretados como um sinal de "ausência de risco".
"Algumas espécies de grande importância conservacionista continuam a mostrar sinais preocupantes e sete espécies endémicas raras não foram reencontradas ao longo de mais de 20 anos de amostragem, sendo consideradas provavelmente extintas, ou seja, continuam a existir ameaças importantes para a biodiversidade insular", lê-se no comunicado do CE3C.
Segundo os investigadores, a estabilidade observada nas florestas nativas açorianas "poderá estar associada à proteção legal e aos esforços de conservação desenvolvidos nas últimas décadas", o que consideram "uma boa notícia".
"A floresta nativa dos Açores continua a ser um refúgio essencial para a biodiversidade única do arquipélago, mas o seu futuro depende de proteção ativa, monitorização contínua e investimento científico de longo prazo", sublinham.
O estudo agora publicado tem por base amostras e informação recolhidas entre 1999 e 2023 em 30 locais padronizados, distribuídos por 15 fragmentos de floresta nativa, em sete ilhas dos Açores.
Foram consideradas 30 mil observações pertencentes a 405 espécies de artrópodes, sendo 91 delas endémicas dos Açores.
Em análise estiveram tanto as comunidades de artrópodes do solo, amostradas através de armadilhas de queda, como as comunidades cujo habitat está acima do solo, nas árvores, amostradas por batimento das respetivas copas.
O Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais é uma unidade de investigação e desenvolvimento sediada na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com polos na Universidade dos Açores e no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.