Direita soube capitalizar ataques de 2001 contra Estados Unidos
A socióloga norte-americana Ruth Milkman considera que a direita soube capitalizar "a oportunidade política" gerada pelos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001 contra os Estados Unidos, desde então uma nação "definitivamente mais paranoica".
O momento conhecido nos Estados Unidos como "Nine Eleven" (9/11) -- em que, sob a coordenação da organização fundamentalista islâmica Al-Qaida, quatro aviões comerciais de passageiros foram sequestrados, três dos quais lançados contra as Torres Gémeas, em Nova Iorque, e o Pentágono, em Washington, e um quarto que os passageiros e tripulação fizeram cair na Pensilvânia, resultando na morte de quase três mil pessoas -- é "muito importante" para entender o que o país é hoje.
Passados 25 anos sobre os ataques desencadeados por muçulmanos extremistas, Ruth Milkman assinala que "o 11 de Setembro é realmente o momento em que a islamofobia disparou completamente" nos Estados Unidos.
"Agora estamos a vê-la amplificada de novo e, nesse sentido, [o 11 de Setembro] é a raiz do século XXI", alerta a professora de Sociologia e História na Escola de Estudos Laborais e Urbanos CUNY, em Nova Iorque, oradora convidada da conferência "Sociologia Pública para o nosso tempo", organizada pela Associação Portuguesa de Sociologia, em Lisboa, na sexta-feira passada.
Em entrevista à agência Lusa, à margem da conferência, Ruth Milkman recorda que "a reação inicial [ao 9/11] foi de solidariedade, de ajuda mútua", mas transformou-se "em algo reacionário, uma semana depois".
Alinhada com o campo democrata, Ruth Milkman confessa-se "desanimada" ao pensar no que poderá acontecer nas eleições intercalares de novembro nos Estados Unidos.
Os apoiantes do Presidente Donald Trump -- assinala -- "estiveram quatro anos fora do poder", mas estavam confiantes de que venceriam as eleições de novo e "apareceram com um programa muito detalhado" desta vez e agora "muitas pessoas foram indicadas para importantes cargos políticos e estão a executar esses planos".
Milkman lembra que "ninguém esperava" que Donald Trump vencesse em 2016 -- "incluindo o próprio", mas este segundo mandato presidencial é "totalmente diferente".
Quando da primeira eleição, "eles tinham a mesma conversa, mas não conseguiram fazer muito, nem de perto quanto já fizeram em apenas um ano", distingue.
Ainda assim, Trump continua a encontrar resistência, sobretudo nos tribunais, "mas é um trabalho muito lento", lamenta, referindo, a título de exemplo, "a última" dos trumpistas: "Estão a utilizar os serviços postais para 'cozinhar' o mito do voto fraudulento".
Neste contexto, a socióloga não tem por certo que as eleições intercalares de novembro venham a ser justas e livres: "Estão a tentar arranjar maneira de suprimir o voto, este é só um exemplo, mas eles estão a planear isto há muito tempo."
E "nada parece pará-los", nota, recorrendo à doutrina militar "shock and awe" ("choque e pavor"), baseada no uso rápido e avassalador de força para paralisar a compreensão do adversário e destruir a sua vontade de lutar, usada durante a primeira Guerra do Golfo.
"É esse tipo de abordagem, todos os dias há algum novo anúncio de outra política da cartilha, fica difícil acompanhar", reconhece.
Milkman defende que a resposta à ascensão do populismo de direita é um "populismo de esquerda", que responda às mesmas preocupações, sem recorrer à mesma linguagem: "Qual é o problema [de combater o populismo com populismo]?", questiona.
"Trata-se de dar resposta às sérias e reais preocupações dos mais necessitados, que são parte da razão por que Trump e companhia conseguiram gerar tração", afirma.
"Não podemos ignorar essas preocupações, temos de dar resposta às legítimas queixas das pessoas que têm perdido com todas as transformações económicas em curso. Não precisamos de lhe chamar populismo, não me importa o que lhe chamem, mas não podemos ignorar essa gente, que está a sofrer e merece atenção. As suas queixas são legítimas, só estão a ser mal orientadas", vinca.
Milkman vai continuar a dizer "populismo de esquerda", porque "isso não é algo mau", sustenta, realçando que se trata de uma "versão de populismo que é progressista, que não é racista nem busca bodes expiatórios, mas aponta a culpa a quem pertence, àqueles que são realmente responsáveis pela situação, por todo o crescimento e toda a desigualdade".
No cenário atual, em que as pessoas não acreditam nos factos -- por exemplo nos dados que revelam os benefícios da imigração para as sociedades acolhedoras, tema que Milkman tem estudado --, "tudo o que podemos fazer é tentar educar as pessoas" e "isso não é assim tão complicado", passando por "encontrar forma de comunicar para uma audiência maior", diz a professora, autora, entre outros, dos livros "Immigration matters [a imigração importa]" e "Immigrant labor and the new precariat [o trabalho dos imigrantes e o novo precariado]".
Milkman vê "populismo de esquerda" em figuras do Partido Democrata como Zohran Mamdani, autarca de Nova Iorque, a congressista Alexandria Ocasio-Cortez ou Abdul Al-Sayed, que venceu as primárias no Michigan e poderá ser o primeiro muçulmano a chegar ao Senado (câmara alta do Congresso).
"Há um monte deles! O que me entristece é que os liberais estejam a resistir-lhes em vez de os abraçar, acho que é um erro. Eles estão a ganhar, mas o inimigo deles não é só Trump e companhia, mas os democratas 'mainstream' [do sistema], o que é triste", critica.
As eleições intercalares agendadas para 03 de novembro irão renovar a totalidade da Câmara dos Representantes (câmara baixa do Congresso norte-americano) e um terço do Senado.
Os republicanos de Trump têm atualmente maiorias curtas no Congresso e o partido no poder perde normalmente terreno nas eleições intercalares.