Portugal cria 82 mil empregos e procura sobretudo trabalhadores de serviços pessoais
O segundo país europeu que mais aumentou o número de pessoas empregadas no último ano entre os países destacados num estudo sobre o mercado de trabalho europeu
Portugal acrescentou cerca de 82 mil pessoas à população empregada entre o 1.º trimestre de 2025 e o 1.º trimestre de 2026, segundo uma análise da BestBrokers baseada em dados do Eurostat e das ofertas de emprego registadas na rede EURES, divulgada hoje. O crescimento coloca o país entre os que mais expandiram o emprego na Europa, apenas atrás de Espanha, que acrescentou cerca de 430 mil trabalhadores.
O estudo mostra, contudo, que a expansão do emprego não está distribuída de forma uniforme pelos diferentes sectores. Em Portugal, os trabalhadores de serviços pessoais surgem como a categoria profissional com maior procura nas ofertas analisadas pela EURES entre Julho de 2025 e Junho de 2026. A mesma profissão lidera a procura em países como Espanha, Malta, Dinamarca, Eslováquia, Hungria e Islândia.
A procura inclui áreas relacionadas com os cuidados pessoais e outros serviços destinados directamente à população. Os dados da EURES para Portugal identificam, entre as áreas com oportunidades, os cuidados pessoais, incluindo auxiliares de família, assistentes de cuidados de saúde e trabalhadores de apoio a crianças, além da saúde, distribuição, logística e transportes, construção especializada e determinados trabalhos agrícolas.
O retrato português surge num contexto de forte actividade do mercado de trabalho. No 2.º trimestre de 2026, a população empregada atingiu 5,4 milhões de pessoas, mais 151,5 mil do que no mesmo período do ano anterior e o valor mais elevado desde o 1.º trimestre de 2011. A taxa de desemprego situou-se nos 5,3%.
A evolução mais recente também mostra uma elevada capacidade de transição para o emprego. Entre o 1.º e o 2.º trimestre deste ano, 102,8 mil pessoas que estavam desempregadas passaram a estar empregadas, correspondendo a 29,7% do total de desempregados no início do período.
A escassez de trabalhadores não é, por isso, apenas uma questão portuguesa. A análise da BestBrokers conclui que, em vários países europeus, o principal problema está a deixar de ser a falta de emprego para passar a ser a falta de pessoas disponíveis com as competências procuradas. A plataforma contabilizou cerca de 10 milhões de vagas anunciadas na Europa, embora os números não sejam directamente comparáveis entre países devido à dimensão muito diferente dos respectivos mercados de trabalho.
Entre as profissões mais procuradas em toda a Europa estão os trabalhadores técnicos, com 735.436 vagas, seguidos dos profissionais associados de escritório, com 608.712, trabalhadores da metalurgia e maquinaria, com 586.897, condutores e operadores de veículos, com 522.299, e operadores de máquinas e instalações, com 517.592. As cinco categorias representam quase três milhões de ofertas.
Portugal apresenta, assim, um perfil diferente daquele que muitas vezes é associado à transformação do mercado de trabalho pela inteligência artificial. Embora as profissões ligadas às tecnologias de informação continuem a ter procura, a maior necessidade de recrutamento no país está relacionada com funções de contacto directo e prestação de serviços.
O cenário coincide com as previsões de recrutamento para o final de 2026. Um estudo divulgado esta semana pelo ManpowerGroup aponta para uma projecção líquida de criação de emprego de 32% em Portugal no 4.º trimestre, mais 14 pontos percentuais do que no trimestre anterior e mais 19 pontos do que no mesmo período de 2025. Indústria e construção e imobiliário lideram as intenções de contratação.
A escassez de trabalhadores convive, contudo, com dificuldades específicas, sobretudo entre os mais jovens. A Comissão Europeia indica que a taxa de desemprego dos jovens dos 15 aos 24 anos foi de 19,5% em Portugal em 2025, acima dos 15,2% registados na União Europeia. O mesmo relatório aponta ainda para problemas persistentes de precariedade e desadequação entre qualificações e necessidades das empresas.
O mercado português encontra-se, assim, perante um paradoxo: há mais pessoas empregadas e mais empresas a procurar trabalhadores, mas continuam a existir bolsas de desemprego e dificuldades de entrada no mercado para determinados grupos. Ao mesmo tempo, sectores como os cuidados pessoais, a saúde, a logística, os transportes e algumas actividades ligadas à construção continuam a enfrentar dificuldades em encontrar mão-de-obra.
A análise da BestBrokers, baseada nas ofertas registadas na EURES entre Julho de 2025 e Junho de 2026, reforça esta mudança: Portugal está a criar emprego, mas a questão central começa a ser cada vez mais a capacidade de encontrar trabalhadores para ocupar as vagas existentes.