Teerão avisa que usará "resposta militar" se EUA aumentarem bloqueio naval
O presidente do parlamento e líder dos representantes do Irão nas conversações indiretas de paz com os Estado Unidos ameaçou hoje com "uma resposta militar" se as forças norte-americanas intensificarem o bloqueio naval aos portos iranianos.
"Se intensificarem o bloqueio, daremos, sem dúvida, uma resposta militar", declarou Mohammad Bagher Ghalibaf num vídeo divulgado pelos meios de comunicação iranianos, no qual apelou aos iranianos para que usem contenção no consumo de combustível.
O dirigente iraniano e antigo membro da Guarda Revolucionária observou que um bloqueio naval é considerado uma ação militar ao abrigo do Direito Internacional.
Estas declarações surgem em plena operação "Pária Económico", anunciada na semana passada pelos Estados Unidos como forma de isolar a República Islâmica através de sanções secundárias a empresas e indivíduos que desenvolvam relações comerciais com Teerão.
Esta "guerra económica" junta-se ao bloqueio naval que os Estados Unidos reataram após o colapso do memorando de entendimento assinado em junho com o Irão, que por sua vez voltou a colocar o tráfego marítimo no estreito de Ormuz sob ameaça.
"Se a intenção do inimigo é impedir-nos de exportar petróleo do Golfo Pérsico, então ninguém poderá exportar petróleo", afirmou o presidente do parlamento iraniano.
Ao mesmo tempo, instou os seus concidadãos a "poupar gasolina" como forma de enfrentar a escassez enfrentada pela população.
"Se consumirmos com moderação, conseguiremos gerir a quantidade de gasolina que produzimos", acrescentou o presidente do parlamento, frisando que o Irão é um dos maiores produtores de petróleo do mundo.
Os alertas de Ghalibaf surgem depois de os Estados Unidos terem atacado no domingo a ilha iraniana de Larak, referindo que foram visados lançadores de minas destinadas ao estreito de Ormuz.
O Irão respondeu com ataques a bases norte-americanas na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos, embora os dois países tenham indicado que intercetaram todas as ameaças.
O secretário do Tesouro norte-americano afirmou na segunda-feira que o objetivo da "guerra económica" é o de devolver a parte iraniana às negociações e não uma mudança de regime.
"O objetivo aqui é criar as condições para que eles queiram sentar-se à mesa das negociações", declarou Scott Bessent em entrevista à cadeia norte-americana CNBC, quando questionado se Washington procurava uma mudança de regime na República Islâmica.
Para o governante norte-americano, será uma questão de tempo até que a operação de asfixia económica a Teerão comece a produzir efeitos nos líderes iranianos, alegando que "eles estão isolados" e a mostrar sinais de apreensão.
"Estamos a começar a ver os seus líderes eleitos a queixarem-se abertamente sobre o estado da economia, estão a falar com os iranianos de linha dura em público. Estão a falar com o povo iraniano", comentou, ao apontar uma moeda nacional "em colapso" e a elevada inflação.
O Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, avisou hoje pelo seu lado que a política de "pressão e ameaças" dos Estados Unidos pode fazer fracassar os esforços diplomáticos para pôr fim à guerra e acrescentou que Teerão cumprirá os compromissos assumidos.
"A falta de garantias" de que Washington cumprirá o memorando de entendimento alcançado em junho, "bem como o regresso a uma política de pressão e ameaças, correm o risco de fazer descarrilar o processo diplomático", afirmou Pezeshkian, durante a cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, no Quirguistão.
Pezeshkian disse que o Irão retomará imediatamente o cumprimento dos compromissos assumidos no memorando de entendimento para terminar o conflito caso Washington faça o mesmo.
O exército norte-americano reivindicou hoje a responsabilidade pelo bloqueio de 84 embarcações comerciais como parte do encerramento contínuo do perímetro do estreito de Ormuz, por onde passavam 20% dos hidrocarbonetos mundiais antes do início da guerra, no final do passado mês de fevereiro.
Washington e Teerão acordaram em 17 de junho um memorando de entendimento, que incluiu um cessar-fogo imediato, a reabertura do estreito de Ormuz e o levantamento do bloqueio naval entretanto imposto pelos Estados Unidos aos portos do Irão.
As partes voltaram no entanto à confrontação e aos respetivos bloqueios navais e não prosseguiram as negociações previstas no memorando para alcançarem um acordo de paz definitivo, cujo prazo de dois meses já expirou.
O Irão exige que os Estados Unidos voltem aos compromissos assumidos no memorando e tem reiterado que o estreito de Ormuz só será reaberto em troca do fim da guerra em todas as frentes e do levantamento do bloqueio norte-americano.
Ao mesmo tempo, tem negociado com o vizinho Omã um acordo provisório para o estabelecimento de rotas marítimas seguras em Ormuz, antes de os dois lados avançarem para um entendimento final, que poderá culminar na cobrança de portagens à navegação comercial.